terça-feira, 17 de março de 2015

Não é fácil o amor.





Não é fácil o amor.

Agarrou-se à esperança de mais um sorriso, uma canção e um prato de tremoços comido a dois, a quatro dedos – a casca a saltar, o fruto trincado empurrado com um golo de cerveja – não sentiriam a chuva, viam a humidade em  gotas, nos vidros, o céu a carregar-se, a cair-lhes em cima. Passavam de um lado para o outro, encolhidas, as pessoas, as crianças, os rapazes carregados de mochilas. Ela trincava o miolo amarelado, a ponta dos dedos a ficar enrugada, por vezes, esquecia-se e deixava-se ficar num olhar mais triste, um guarda-chuva mais colorido, os dedos arrefeciam, catavam a pele e a casca mais solta. Distraída, esquecia-se. A imperial aquecia. Conseguia desenhar os olhos, uma boca, no copo transpirado. Olhava para o copo dele. Mais vazio, já sem espuma. Não conseguia evitar acompanhar-lhe os gestos, sentia o frio que entrava, quando a porta da rua se abria. A pele e o sentir. Arrepiados. Talvez, ainda, uma estrada sem chuva, sem lama, talvez, restasse o tempo de um abraço sem cansaço, nem arrependimentos, talvez… Pensava na canção. Pensava na gargalhada e no sol, insistia na esperança - e, se não se tivessem acabado as palavras?!  Por fim,  engoliu a mágoa, um soluço, o fim, a esperança, no mesmo golo de cerveja fresca. Os dedos finos a segurarem o copo. Como garras fortes. Tudo um tremendo equívoco, os parágrafos trocados, o discurso reles, as imagens obscenas, a gargalhada, a boçalidade, os dias à espera de uma resposta, um agrado. A espera. Ela à espera. Ele a falar, a falar, a contar anedotas, a não se importar, a repetir a mesma conversa, a insistir em histórias de conquistas, de divertimento, as imagens, as mesmas imagens sem legendas. Feias. Sujas. Encostou, com cuidado, o copo vazio ao pratinho das cascas, olhou para ele, encolheu os ombros, levantou-se, contou  com o indicador umas moedas. No tampo da mesa, o desenho irregular do fundo molhado dos copos. Adeus. Sem caminho. Sim. Tinha a certeza. Deixou-o à procura do empregado, para lhe pedir mais uma. Mais uma. Como ela. Não deixara mágoa, apenas a decepção. A desilusão, perceber outra pessoa: os sentimentos não interessavam. O homem que não conhecia deixava aquela tristeza fininha, a rasgar a pele, a crescer dor no seu corpo. Fininha como o frio das gotas de chuva que a surpreenderam, naquele mês de março. Quase primavera. Desculpa, foi sem querer.

Não tenho nada para desculpar, para perdoar, como se desculpa uma pessoa de ser quem é?  

segunda-feira, 9 de março de 2015

Um bife, o Tejo e o Dia da Mulher.





Um bife e o Tejo no Dia da Mulher.

Dizem que perdi massa gorda, que tenho as defesas em baixo, que estou muito magrinha, que se conseguem contar as costelas, os ossos do ombro, as pernas estão muito fininhas, as rugas do rosto  muito acentuadas e que se não me fortalecer, em breve, uns bichinhos irão fazer das minhas forças um belo repasto. Não costumo discutir a autoridade de quem sabe mais de matemática do que eu, portanto, se me dizem que tenho de comer dois bifes por semana, comerei dois bifes, por semana – coisas de médicos, manias de quem não cresceu com a imagem da Twiggy e gosta muito de donuts. Pois, muito bem, comerei um bife, talvez, dois. Os médicos que me desculpem, mas se na garganta não passar mais do que duas garfadas de carne mal passada, não insistirei. Hoje, resolvi, embrulhada numa roupa mais domingueira, aproveitando o dia de sol e a proximidade do Tejo, ir comer um bife à beira Tejo. Convidei várias pessoas: não, hoje, é domingo, almoça-se com a família, é dia da mulher temos de estar com o marido e os filhos, convidei a sogra para almoçar. OH! menina um bife, hoje, à beira Tejo, com tanta obrigação que tenho ao fim de semana?! Vai ao talho do supermercado, frita um bife, compra umas batatinhas de pacote, liga a RFM e, pronto, comerás o teu bife, o teu primeiro bife da semana, da tua nova dieta. Neste momento dos convites ao telefone, enfastiada com as sogras e as obrigações de quem não arranja desculpa melhor, parti para o rio. Uma tarde de inverno quente, um Tejo, barcos à vela, a promessa de um futuro, assim, transparente, brilhante e luminoso. Sentei-me na esplanada que mais gosto, o melhor ângulo de água à minha frente e aguardei a minha vez. Esperei o bife que me tiraria da miséria que é o meu corpo mirrado e me devolveria uma saúde de ferro, sem ferrugem. Veio o bife, veio o copo de vinho, vieram as conversas: IRS, Passos Coelho, na minha próxima vez deixamos os putos com a tua mãe. Então a violência doméstica está a aumentar? É como os casais homossexuais: dantes ninguém falava no assunto e agora, até, aparece nas telenovelas, é um sinal dos tempos desta sociedade sem valores. Ai! Menina, experimentei um gelinho para as unhas que dura uma eternidade. Pedrinho, ponha o guardanapo no colo para não se sujar. O  bife encolhia, a minha camisa mais certinha (afinal, eu ia comer um bife, numa esplanada!) parecia perder a graça e a garganta fechava-se, o copo de Casa de Santar empurrava, a custo, a bola da última dentada de bife, entretanto já tirara uma par de fotografias a um casal alemão, a família de filhos barulhentos olhara-me com olhos de ver, para o decote e o sol começava roçar-se nas minhas   costas. O calor aumentava e a família numerosa não me deixava sossegar. Pensei que tinha escolhido mal a esplanada, que deveria estar a beber Coca-Cola e que comer um bife se estava a tornar uma experiência pouco agradável: olha, a gaja está sozinha, ocupa uma mesa de quatro lugares e tem um copo de tinto na frente, está comemorar o dia das gajas. Sábias palavras proferidas por um grupo de três cavalheiros, com o saco do Expresso debaixo do braço e polos Gant coloridos. Uma gaja a ocupar uma mesa de quatro e nós aqui em pé. A bola do bife deslizou-me pelas goelas. A Casa de Santar e o calor da camisa de seda preta incharam-me o mau feitio e, num gesto educado com um português muito bem articulado, interpelei os cavalheiros : Há aqui três lugares vagos, os senhores estão de pé, está muito calor, podem sentar-se aqui, por favor, estejam à vontade. Olharam-me com desconfiança, não deixando de fitar o botão da minha camisa que  se soltara, encolheram os ombros e com a arrogância e sobranceria responderam: deixa estar - registei o tratamento por tu – a nossa mesa está quase pronta. Viraram-me as costas, soltaram uma gargalhada e - não tenho a certeza - mas ia jurar, que ainda ouvi um olha a gaja, deve ser das tais que anda à procura de homem, estas casas não deveriam deixar entrar toda a gente. Não reagi - já tinha perdido o gosto, o bife estava frio e o sol aquecia-me demasiado as costas. Pedi uma segunda taça de vinho e mergulhei no Tejo. Por momentos, pensei que estaria no lugar errado e que o certo era ter ficado em casa a ouvir a RFM, fritar o bifinho na frigideira, cozer melhor os botões das camisas… breves momentos. Aliás. A minha estreia a comer bifes em sítios públicos não foi das mais felizes, nem muito barata e concordo em absoluto com as palavras do cavalheiro de polo Gant azul-turquesa: estas casas não deveriam deixar entrar toda a gente. Mas talvez seja por este exercício gratuito de humilhação do macho colorido perante a fémea que tem o arrojo de ir sozinha comer um bife, que o dia da mulher não pode deixar de ser celebrado.

Quando bebi o café, uma fila de pequenos barcos à vela, deslizava ao sabor da brisa quente e o Tejo, prateado e orgulhoso, sem que ninguém percebesse, piscou-me o olho. Saí, agradeci à empregada delicada que me tinha servido e comecei a pensar na esplanada, assim que o saldo do meu cartão o permitir, onde, comerei, sozinha, o próximo bife mal passado.  

terça-feira, 3 de março de 2015

A música.




A música

Vou muito para trás, agarro a ponta de uma nuvem que agora é memória e vou como se não tivesse rumo, e sei tão bem, onde moras, nuvem perdida. Vejo o perfil, os telhados recortados contra o céu. Eu já não existo debaixo desse céu, da janela vê-se, agora, um sol rubro, vivo, diferente, outro sol. A janela alta com a moldura de madeira que tocava aquele céu escuta, agarra a música. Novos compassos. Outros solistas. Transparentes. Consigo vê-los. Oiço-te. Percebo pela sombra que somos outros. Que somos de outros. Percebo que não sou eu. Já não existo. Parti. Partimos. E, num sopro de uma nota só, deixámos de existir.

Sem mágoa, só a música me leva até à porta da tua casa que não existe. Já não és tu. Não somos, nem diferentes.

Sem mágoa, apenas, a tua mão a agarrar a mesma nuvem que eu.

Sem mágoa.

Cala-te, por favor.





Cala-te, por favor.

Escrevo. Respiro e oiço-te, voz. Acompanhas-me os passos, os gestos, pertences ao coro dos meus dias, vais tecendo os teus comentários e não te coíbes de me criticar, dizes que estou no mau caminho, que ando a dançar demais, (também bebo muito?), que combino mal os vestidos, a pintura não condiz com a cor das meias, descuro a educação dos miúdos e, muitas vezes, até, me acusas de me colocar em primeiro lugar, repetes à exaustão que grito como o diabo. Dizes tu! Esta voz que me acompanha não é a voz de um anjo da guarda, tenho de  dizer-te, aliás, que, ontem tropecei nos pés, ou numa pedra mais levantada, espalhei as fatias de fiambre e os bifes pelo lajedo do pátio e o meu anjo da guarda - sempre ele - impediu-me de desfazer uma dúzia de ovos, amolgar um par de óculos e o nariz. E, lá vieste tu - voz embirrante - dizer que ando com a cabeça nas nuvens, que não sei onde ponho os pés e o blá, blá, blá do costume. Desculpa, estou a ficar sem paciência. Ouvi dizer que há (quase) um programa de televisão onde também aparece uma voz, assim. Irritante. Como tu. Se insistes em dizer que durmo pouco e me alimento mal, mando-te, ‘sem dó nem piedade’, fazer companhia à Dª Teresa Guilherme. Tens de perceber que não ajudas nada e estás a tornar-te uma moralista irritante e beata. Percebe, lá de uma vez por todas que tenho uma vida para viver, um caminho de pedras para saltar, tropeçar, ou dar um pontapé. E lá estás tu… insistes na ideia absurda de procurar alguém que me faça companhia, que me ajude a arrumar os papéis do IRS, colocar os discos por géneros musicais, que me leve ao cinema, à praia, essas coisas. Chega! Cala-te, tenta entender, estou bem assim e tu sabes muito bem que as minhas lágrimas não são solidão, camas frias, ombro para descansar a cabeça… Cala-te voz. Deixa-me em paz. As minhas lágrimas têm outra cor, outro gosto, outro nome. E, se voltares a dizer-me que choro muito, vais de um pulo só fazer companhia a alguém numa qualquer estação de televisão. Não tenho, garanto-te, muitas dúvidas quanto à escolha a fazer. Ah! Agora, falas do meu roupeiro, cheio de vestidos, camisas, sapatos, da imoralidade que é a quantidade de lenços e écharpes que coleciono. Talvez não tenha tempo para as usar todas, talvez, mas a tua constante insistência em chamar-me perdulária não é muito encorajadora. Desde que me acompanhas que não oiço um elogio, uma piada de muitas gargalhadas, um afago. Voz. Vai-te embora. Procura outra cabeça, outra alma, outra pessoa. Alguém que ainda acredite no ‘poder da voz interior’, na vida além da morte, no ‘poder transformador do amor’ - essas merdas todas que me sussurras ao ouvido, quando os meus dias são mais longos, as noites sem sono e a pensar em cigarros.

Sai da minha cabeça, voz. Sai de uma vez. Desaparece. Não acredito nas tuas boas intenções. Procura à tua volta. Procura bem, não faltará quem queira seguir as tuas palavras como uma bússola. Sem pisar o risco. Eu já não te oiço: ensurdeceste a minha razão.

Adeus

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Vamos falar de Amor





Vamos falar de Amor.

O jantar está ao lume, cozo os legumes que serão uma sopa que tu não provarás. Arrumei os congelados como tu me ensinaste: a carne e o peixe em gavetas separadas, os legumes por ordem de validade e cores, as caixinhas e as respetivas tampas com os restos que trouxemos do almoço de domingo em casa da tua mãe, os cubos de gelo, o pão fatiado. Tudo como tu gostas. Tanto que tenho aprendido contigo, meu amor! O guisado está quase pronto, temperei-o com um cubinho Knorr. Não notarás o gosto e dirás cozinhas quase tão bem como a minha mãe, o tempero está parecido, a tua mão para o sal melhora de dia para dia, devíamos convidá-la mais vezes, sempre aprenderias alguma coisa. Começo a sonhar, férias à beira-mar, sexo numa cabana, o fato de saia e casaco igual ao da Dª Teresinha do andar de cima, o emprego de secretária, os exames do décimo segundo ano que não fiz, porque, entretanto, nasceu o Vasquinho. Provo  a magia do cubinho dourado com a colher de pau a escorrer o molho grosso na palma da minha mão, continuo a sonhar, mexo devagar para que o jantar fique apurado cheira bem, volto para os sonhos,  o óbvio, os miúdos a aprender línguas, o funeral da tua mãe, abafo uma gargalhada e sinto-me corar, a sair pela janela da cozinha, nas avenidas de uma grande cidade, ou numa sala de cinema, a ver uma história com aquela atriz de cabelo loiro, que vimos num filme fingir um orgasmo e tu chamaste-lhe  porca. Nunca mais me deixaste ir ao cinema, nem ao clube de video e contas essa história, quando bebes um copinho a mais. Saio da avenida, abandono o cinema, volto para o fogão, mexo, mais uma vez, o molho e jogo, para dentro do tacho, as batatas partidas aos cubos, todos do mesmo tamanho, como tu me ensinaste, meu amor. Temos de ser impecáveis, até, a cortar as batatas. Tens razão. Vou agora para mais longe, arrumo os peúgos, os teus e os dos miúdos, imagino-te a cantar as canções dos Bee Gees ao ouvido, recordo a tua mão a tirar-me as cuecas no alpendre da vizinha Rosa, a vergonha na rua, a barriga a crescer e, de repente, sai-me uma gargalhada, vejo o caos nas caixas do supermercado, o responsável de olhar louco sem saber o que fazer – um supermercado às escuras, os cartões multibanco encravados, as pessoas a correrem como loucas para as prateleiras dos chocolates, continuo a rir, gargalhadas soltas, à toa, pela cozinha.  Gritas de dentro do sofá florido, forrado a plástico: OH! Mulher, endoideceste? Estás maluca, agora ris sozinha? És parva, ou quê? Chama os putos para a mesa, tenho fome. Onde está a Verinha? Vai chamá-la, anda, tenho fome, porra! Sim, meu amor, está quase tudo pronto. A Verinha hoje chega mais tarde, está no turno da noite. Fico com o coração mais pequeno que o bocadinho de tomate que dança ao som da colher de pau, a minha Verinha, tinha tanta felicidade para lhe ensinar…Tenho de me despachar, pôr a mesa, passar as camisas do meu amor, nem me sento , hoje atrasei-me com os sonhos e as parvoíces do costume que me passam pela cabeça. OH! Vasquinho, vem para a mesa que o jantar está pronto, acabas o jogo depois do jantar. A casa está limpa, hoje é terça-feira, aspirei e lavei a roupa e os vidros, no domingo. Amanhã, entro no turno da tarde, vou deixar-te ir para a cama primeiro que eu, adormecerás de seguida e não te apetecerá foder-me - dois dias seguidos costumam deixar-te exausto. Poderei acender o candeeiro da mesa de cabeceira, tu não acordarás, meu amor e eu posso continuar a ler o livro que trouxe do supermercado, tenho de o colocar no mesmo sítio antes que a Josefa arrume as promoções da semana, insistiram que eu trouxesse as sombras do não sei o quê, eu prefiro a prateleira dos autores portugueses, ninguém os lê, ela não perceberá que trouxe debaixo da bata o livro da Dª Lídia Jorge, gosto dela, é algarvia, de Loulé, acho eu, como o meu avô da figueira grande. Já se sentaram à mesa, cheira bem o comer, esta receita é da televisão? Não respondo, faço de conto que não ouvi. Volto para a janela, agora não vou voar para lado nenhum, posso deixar cair um peúgo dos teus preferidos, meu amor, umas cuecas do miúdo, uma mola, sei lá, qualquer coisa… Os vizinhos da frente também estão a jantar e têm a televisão da cozinha ligada no mesmo canal que nós, estão todos a ver o mesmo e a mim só me apetece saltar, fugir pela janela. Não, meu amor, não farei isso, nem por ti, nem pelos nossos meninos, estarei a teu lado para o que vida nos quiser dar, meu amor.

Amo-te, Jorge e tanto, tanto. Para onde queres que eu vá, se tu nunca sabes onde deixas as chaves do carro? Jorge, meu amor.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

( Mas isto sou eu a escrever num dia como outro qualquer.)




(Mas isto sou eu a escrever num dia como outro qualquer.)

Estavas a pensar em algo mais sério?

Trato-te por tu, sem manias, nem cumplicidade de almofada. Não te falarei de amor, nem direi que te amo, porque sobre o amor não sei falar. Acreditei que existia, pensei que era uma construção que se retocava todos os dias, uma comunhão de frases acabadas ao mesmo tempo, uma casa cheia de flores, uma gentileza, um piscar de olhos. Percebo, agora, que o amor é uma invenção literária, ou uma bênção. Falo do amor de um casal, de casa, de filhos e mesa com toalha  branca, a sopa quente e a horas. De uma vida com a mesma alegria no olhar. Como gosto de ler e de literatura não fui abençoada com esse amor. Seriam, talvez, incompatíveis. Não sei, não tenho respostas e a paciência para as perguntas vai-me faltando. Vejo o amor dos meus pais. Assisti ao amor dos meus avós, vivo-o no cinema, nos romances e quanto ao Amor - com maiúscula - assunto encerrado. Não falo de poetas – falei de Literatura que é o mesmo. Percebo o amor incondicional pelos filhos. Conheço o cheiro e o gosto. E não questiono o sentimento que me faz ter amigos há cinquenta, trinta, vinte, dez anos. Amigos que atravessam o Oceano para me abraçar, dormem ao meu lado na mesma cama de hospital, riem, choram de mão dada comigo, ou trocam um par de horas de conforto por um telefonema. Gosto das pessoas que são, não imagino a minha vida sem elas, apesar de já ter algumas na memória . No que sou, oiço e cheiro. Sou o que cada uma delas me deixou tirar-lhes.

  Está riscado, por aí,  nas paredes, desenhado nas nuvens, P. está apaixonado por C. ; L . ama T. Ou a frase mais desesperada ( é de desespero que se trata, certo?) não sei viver sem ti. Deduzo, portanto, que esta ”coisa” do Amor, a tal invenção da Literatura, a bênção, deve ser uma obsessão, um sinal dos tempos, uma necessidade dos homens e das mulheres. Uma demanda. Uma parede contra a solidão de cada um de nós. Não sei. A minha solidão está bem, muito obrigada, e faz par com a minha liberdade. Se dançarem a noite toda, entre uma piscadela de olho e uma taça de vinho, então, estão em paz.

Estavas a pensar em algo mais sério?

 Não me digas que acreditas em tudo o que está escrito na última garrafa de vinho? No fundo de alguns dos meus copos pode ler-se Ikea.

Nos teus lê-se o quê?

 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

"Estava bonita a festa, pá."

http://youtu.be/rWu0N0qPeME


"Estava bonita a festa, pá"



Vou para a casa, a noite perdeu a alegria, os telefonemas, os insultos, a ameaça… tudo perdeu o brilho e a miúda gira... a miúda gira guardou as sabrinas, esticou as meias pretas e subiu para o quarto para guardar, sem mácula, nem  nódoas, o cheiro de uma noite que num estalar de dedos perdera a magia. O vestido era bonito. Ela também: seria perfeito se nos amássemos. Saio com a cara enfiada no bolso das calças, sem vinco, depois do segundo maço de cigarros. Acabaram-se os cigarros. Entro no carro, andei um bocado até o encontrar. O meu amigo e eu. Estávamos cansados. Fiquei triste – eu não sei ficar triste, pelos outros, mas é este egoísmo que me anima -  talvez, tivesse  ficado, por ela, pela miúda gira. Não valorizei o seu desgosto, não valia a pena – não podia fazer nada. Quando pus a chave na ignição o telefone ainda gritava insultos. A insanidade tomava conta de mim. E eu permitia. Por egoísmo. Por nojo. Por impotência. Por náusea. Lido mal com  o ranho e a merda. Lembrámo-nos, eu e o meu amigo, das pernas longas e dos calções de xadrez que nos caíra no copo de gin. Rimo-nos, era uma miúda bonita, muito jovem, toda curvas e rimmel.”Podia ser nossa filha.”A gargalhada saiu sem que o percebêssemos. Na bomba de gasolina, compramos cigarros. Fumo com avidez. Fumo sempre com avidez. O primeiro cigarro da manhã. “A miúda era muito gira”, insiste o meu amigo, a imagem das longas pernas aparece num rolo de fumo que deito fora, a imagem está desfocada, não me apetece pensar em pernas, calções outras ‘preciosidades’, mas vejo com  muita clareza o vestido preto, de corte perfeito, as mãos bem desenhadas, a gargalhada, o passo de dança, a mesa cheia de flores, a comida saborosa, os olhares de juízo dos amigos, o nervosismo inicial. “Se não  gostarmos das pessoas....não nos interessarem, oferecemos as flores e voltamos para a nossa vida de fim de semana, não achas?” Ficara combinado. Mas gostámos. Ficámos, Tudo perfeito, o vinho, os vestidos, o perfume da curva do pescoço, a facilidade com que as palavras rolaram. Muito agradável, elegante, “gente de bem, miúdos educados”, como não fico triste pelo outros, não pensei na força, na alegria da figura pequenina e frágil a controlar olhares, pratos sujos. E  o beijo que lhe roubei sem que o filho percebesse? Gosto desses beijos roubados assim. Costumo usar uma expressão para momentos assim, não ouso repeti-la, porque não pertence a esta casa.  Não  pertence a uma casa como aquela.
 Não posso negar a distância.

Sigo pela estrada, amanheceu e estou a chegar. O telemóvel está em silêncio. Nâo tem bateria.  Cumprirei a minha obrigação, as bolachas, o leite com chocolate, os cigarros. Quando me despeço do meu amigo percebo que amizade estará sempre ali, a meu lado. A vida? Não sei! Por enquanto, evito o cheiro a merda, o ranho, o lixo que é preciso arrastar para se entrar na casa do velho. Os insultos páram, no momento, em que rodo a chave na fechadura e mostro o  saco do supermercado. Sossegam os dois. Eu estou cansado. Com o sol, veio o cansaço da obrigação, a insatisfação. A noite, a vida poderiam ser muito melhores. O melhor, a medida do melhor está dentro de cada um de nós. Neste momento o meu melhor está no que consigo fazer com ou sem cigarros. Quando entro em casa (em casa?) penso que a mancha de humidade aumentou, a mancha escura que limita os meus movimentos, me quebra  a pose e  diz que as manchas negras das nossas paredes são a metáfora daquilo em que a nossas vidas se transformaram. A imagem não é minha. Por que é que  permitimos? A minha vida tem  o tamanho da mancha de humidade da parede. Uma mancha suja e escura que alastra nos dias de chuva.De muita chuva.  A vida deve ser mais do que este borrão cinzento, indefinido, escuro, mais claro num ou noutro ponto. A vida é mais do que tudo isto. Aprendi-o contigo ‘minha santa mãe’, mas, de momento, minha mãe, eu não a sei dizer de outro modo. Não a sei viver de outro modo. Lembraste de quando íamos, os dois, ao parque infantil e tu me dizias, que eu era um bom menino, um dia, seria um homem de bem  e que para tudo há um limite, menos para as cores do nosso arco-íris? Apanhei frio. Estou muito constipado.
Mãe,  não sei  viver sem este frémito de arco-íris, diz-me, minha mãe, que farei a seguir?
A festa estava bonita e todos gostaram de mim. E, a seguir, minha mãe, que farei? Amanhã? Depois de amanhã? No dia seguinte?

 
(Deixo-te um abraço e uma lista de perguntas - não precisas de responder a todas.Chegou o momento de me tornar um homem de verdade, daqueles que tu me disseste que sabem tomar conta de si própios - mesmo que isso nunca venha a contecer: não te preoucupes tenho  amor de  sobra.)