segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Rui e eu



 (Tu gostavas muito do Jorge, lembraste? Dizias que tinham estado juntos no "exílio".)


Boas noites e um soninho descansado.


( Meu Anjo da Guarda, minha companhia /guardai a minha alma de noite e de dia.)
Todos temos os nossos mortos.
O Rui e eu.
A última vez que desci contigo as escadas do Plateau, tínhamos passado a noite a dançar, eu era uma miúda e líamos com gosto a Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro, estou muito tranquila a falar destes nomes porque foi contigo, que mais gostei de os partilhar. Plateau e Mário de Sá Carneiro. – A que mundo pertenceríamos nós? - Esta madrugada, depois de o ter procurado, em vão, na cidade – Quem? Não sei. Percebi que nada há de mais injusto e cruel que afundarmos o nosso olhar distraído num outro olhar qualquer. As palavras valem muito pouco e é quando sentimos a neblina do Tejo, que percebemos, ali, na Vinte e Quatro de Julho, com uns vapores de gin no ar, que só precisamos das pessoas que connosco vivem um desgosto, uma alegria, um piropo. És uma miúda engraçada, dizias-me, tu, meu querido Rui. Eu acreditava. Ríamos e comíamos um cachorro quente. Discutíamos as trivialidades da vida e, se eu te dissesse que eram uns olhos azuis que me tinham deixado a pensar em pecados e afins, dir-me-ias: 
 - Faz-te ao caminho.
Mas o Rui morreu há oito anos. As vidas resistem aos impostos, aos trabalhos escassos e ruins. À doença, às injustiças, aos desamores, à solidão, resistirei a tanta saudade? O que me apetece dizer-te é: a minha avó tinha olhos azuis, e eu gostava muito dela. A cor dos olhos importa, sim. E tu sabes.
Corri a cidade. À noite, fora de horas, e não os encontrei, não vi os tais olhos azuis. Da tal criatura. Nada. A cidade estava deserta. Sem imaginação, nem fantasias Ninguém. Descobre-se um ou outro corpo colado ao ego, odiavas esta palavra, Queres em francês? Aí vai: Un seul être nous manque et  tout est depeuplé. Talvez acredite em ti, Rui. Esta noite, fizeste-me falta, sabes que, agora, não como cachorros, passo mais tempo sozinha, recomecei a escrever e não há um só dia em que não pense em ti. Estou um perigo: tive o azar de me deixar entusiasmar por um par de olhos. Não interessa a cor. Hoje, precisei das tuas certezas, porque quando me dizias que uns olhos azuis valem tanto como os olhos de outra cor qualquer, eu acreditava.
De madrugada, vinha do Tejo a neblina fria de que tu tanto gostavas, podíamos dar as mãos e rir até ao Calvário. 
Creio que a amizade é a memória das mãos de um amigo nas nossas.
 - O sexo foi bom? Eu nunca te respondia, mas tu percebias e deixavas-me em paz o tempo suficiente, para eu organizar os sentimentos, os livros, a tranquilidade, o quotidiano e a ansiedade. 
Fazes-me falta, Rui! Tanta falta!
Estás bem, aí, onde estás? E os olhos azuis que recordarei, com nostalgia, serão os da minha avó. Está prometido. Lembras-te dela? Os miúdos estão a estudar muito e para a semana, recomeçarei uma nova série de exames médicos. A camisa preta que tresanda a tabaco irá para a lavandaria. 
Nunca conheci um fumador que odiasse tanto o cheiro a tabaco... Eu deixei de fumar, como sabes. Mas o cheiro entranha-se, quando vamos aos sítios.
Deixo-te um beijo, Rui. 
Mesmo sabendo que limparás a cara com as costas das mãos.
( O Rui morreu num dia de Setembro, estava doente e eu não consegui dar-lhe um abraço, eu sei que ele não se importou, porque continuamos a conversar e a rir sempre que nos apetece.)




                                                              (quase todos os dias desde Setembro de 2008 )

domingo, 7 de agosto de 2016

Almoços de Agosto com Erik Satie

Regresso à casa.


Domingos de Agosto e vento quente.

Os domingos de Agosto a transpirar de Suão eram pouco agitados: a menina da casa, os crescidos e uma longa sesta, mas, se e o almoço trouxesse muita gente à volta da mesa rectangular, uma toalha branca, muito lisa e sem nódoas ou sombras era estendida, os pratos alinhavam-se com os copos e os talheres respeitavam o lombo assado com puré ou o peixe enrolado em papel de jornal, que tinha sido esquartejado na pia de pedra encarnada da cozinha. Em dias de maior liberdade, ou vozes mais altas eu ficava a ver a faca, o escamador e as mãos agéis arrumarem  aquele bocado de espinhas sangue e escamas  num tabuleiro de barro ou alumínio. Nos dias com muita gente, à volta da mesa, o arroz doce com canela seria aplaudido no fim do interminável almoço e eu ficaria a ver as cores desenhadas pelos copos. O sol atravessava o vidro e na toalha apareceriam círculos coloridos, copos alongados e transformados em cálices de pé alto ou pequenas manchas encarnadas - gotas desajeitadas que escorriam pelo gargalo da garrafa  mexida por uma mão mais trémula. Eu gostava de ver aquelas manchas na toalha branca: inventava uma flor, uma forma geométrica, uma história.  Uma nódoa de vinho da toalha e os meus dedos pequeninos contornavam uma história, um rosto, um desenho que nenhum dos meus lápis conseguiria contar. Os almoços de domingo eram longos de conversa. Eu não gostava de comer e as conversas não “eram contas do meu rosário”. Gostava de ver os movimentos das mãos, ouvir o tinir dos talheres no fundo dos pratos, as manchas de vinho ganharem vida -  “Esta criança não come nada. Para onde estás tu a olhar, menina?». Não saberia responder-lhes queria apenas que o almoço acabasse, queria voltar para o escritório, para dentro de um livro ou do quadro da sala de jantar.  Queria soltar-me da mesa rectangular.
Aqueles almoços eram um martírio, eu queria a praia, as ondas ou uma qualquer história que não cheirasse a carne assada ou canela. Com o calor do Suão de Agosto, a casa era o enorme corredor de ladrilhos e viagens imaginárias. Quando conseguia saltar da cadeira para o chão, corria para um ladrilho, um sitio qualquer onde ninguém conseguisse entrar.
As portadas das janelas estavam fechadas para não deixarem entrar o calor, as portas da sala grande com portas de vidro estavam  sempre abertas e era no poial de pedra dessa porta, sempre aberta, que eu também gostava de me aninhar com um livro, o bocado de um desenho ou o pedaço de céu azul que espreitava a trepadeira de espargos com bagas verdes. Corria um ar mais fresco e eu pensava que a noite demoraria a chegar, sobrar-me-ia ainda muito espaço. Atrás de mim o corredor fresco e luminoso chamava-me e as tardes de domingo com almoço e visitas perdiam importância, calor e sentido.
No entanto, ainda me lembro do cheiro a canela e das manchas do vinho tinto entornado na toalha branca. Figuras de histórias que surgem, aqui e ali, quando penso no silêncio da casa. Um silêncio diferente. Fresco. Mágico e brilhante.

(Mais tarde quando ouvi Erik Satie, pela primeira vez, pensei que talvez ele também não gostasse de almoços de domingo, ruidosos e a cheirar a canela.)


Almoços de Agosto com Erik Satie

Regresso à casa.


Domingos de Agosto e vento quente.

Os domingos de Agosto a transpirar de Suão eram pouco agitados: a menina da casa, os crescidos e uma longa sesta, mas, se e o almoço trouxesse muita gente à volta da mesa rectangular, uma toalha branca, muito lisa e sem nódoas ou sombras era estendida, os pratos alinhavam-se com os copos e os talheres respeitavam o lombo assado com puré ou o peixe enrolado em papel de jornal, que tinha sido esquartejado na pia de pedra encarnada da cozinha. Em dias de maior liberdade, ou vozes mais altas eu ficava a ver a faca, o escamador e as mãos agéis arrumarem  aquele bocado de espinhas sangue e escamas  num tabuleiro de barro ou alumínio. Nos dias com muita gente, à volta da mesa, o arroz doce com canela seria aplaudido no fim do interminável almoço e eu ficaria a ver as cores desenhadas pelos copos. O sol atravessava o vidro e na toalha apareceriam círculos coloridos, copos alongados e transformados em cálices de pé alto ou pequenas manchas encarnadas - gotas desajeitadas que escorriam pelo gargalo da garrafa  mexida por uma mão mais trémula. Eu gostava de ver aquelas manchas na toalha branca: inventava uma flor, uma forma geométrica, uma história.  Uma nódoa de vinho da toalha e os meus dedos pequeninos contornavam uma história, um rosto, um desenho que nenhum dos meus lápis conseguiria contar. Os almoços de domingo eram longos de conversa. Eu não gostava de comer e as conversas não “eram contas do meu rosário”. Gostava de ver os movimentos das mãos, ouvir o tinir dos talheres no fundo dos pratos, as manchas de vinho ganharem vida -  “Esta criança não come nada. Para onde estás tu a olhar, menina?». Não saberia responder-lhes queria apenas que o almoço acabasse, queria voltar para o escritório, para dentro de um livro ou do quadro da sala de jantar.  Queria soltar-me da mesa rectangular.
Aqueles almoços eram um martírio, eu queria a praia, as ondas ou uma qualquer história que não cheirasse a carne assada ou canela. Com o calor do Suão de Agosto, a casa era o enorme corredor de ladrilhos e viagens imaginárias. Quando conseguia saltar da cadeira para o chão, corria para um ladrilho, um sitio qualquer onde ninguém conseguisse entrar.
As portadas das janelas estavam fechadas para não deixarem entrar o calor, as portas da sala grande com portas de vidro estavam  sempre abertas e era no poial de pedra dessa porta, sempre aberta, que eu também gostava de me aninhar com um livro, o bocado de um desenho ou o pedaço de céu azul que espreitava a trepadeira de espargos com bagas verdes. Corria um ar mais fresco e eu pensava que a noite demoraria a chegar, sobrar-me-ia ainda muito espaço. Atrás de mim o corredor fresco e luminoso chamava-me e as tardes de domingo com almoço e visitas perdiam importância, calor e sentido.
No entanto, ainda me lembro do cheiro a canela e das manchas do vinho tinto entornado na toalha branca. Figuras de histórias que surgem, aqui e ali, quando penso no silêncio da casa. Um silêncio diferente. Fresco. Mágico e brilhante.

(Mais tarde quando ouvi Erik Satie, pela primeira vez, pensei que talvez ele também não gostasse de almoços de domingo, ruidosos e a cheirar a canela.)


domingo, 31 de julho de 2016

Pode o Amor ser tão Cruel IV - Está Sol no Sul. Epílogo (Sting)





Pode o Amor ser tão Cruel IV?
(sms - 1º parte)
Sms 
1ª parte
“Está sol no sul. Um bom dia para ti e abraços mais logo. Beijo.”
- Guarda essas palavras no teu coração, mana.
- Em que outro sítio as poderia guardar?
- Não sei, tu tens de passar sempre tudo a limpo, tens de organizar tudo. Só sabes sentir com a cabeça!
- Estás a exagerar, eu sou só emoção, lamechice, coração, festinhas e abraços.
- Talvez, depois de passar tudo pelo crivo do teu coração. Deixa-te ir. Arrumarás as tuas “coisinhas” amanhã.
- Não percebeste nada. Há muito tempo que não recebia um sms assim.
- E tens deixado? Por acaso, lembraste dos conselhos que me deste?
- Sou muito má conselheira!
- Não me parece. Depois de escalpelizares tudo até ao mais ínfimo pormenor, depois de “processares” tudo, como tu gostas de dizer, depois da cabeça, dizes tu, arrumada, então sim, permites algumas tréguas a ti própria.
- Oh, mana, fazes de mim um monstro.
- E não és?
- Não, não sou. Sou normal, como toda a gente: ressentida, cautelosa, tu conheces-me muito bem. Às vezes, não tens razão.
- Eu só te disse para guardares as palavras no teu coração. E que tal o sexo? Suponho que ainda gostes de sexo, não?
- Parva!
- E que tal o sexo?
- É bom. Eu gosto. Gosto das mãos, mas conheço pouco.
- Vês?! Lá estás tu! Deixa tudo acontecer, deixa fluir. Deixa a tua cabeça em paz. Gostas das mãos aproveita as mãos, sem grandes teorias.
- Se pensas que te vou contar, estás muito enganada!
- Não precisas de me contar nada! Mas se quiseres sou boa ouvinte…
- Quando passa a palma da mão….
- Ficaste com os olhos a brilhar.
- Fiquei?
- Sim. Isso é bom. Já te disse: “guarda as palavras no teu coração”.
- Achas que ando com um sorriso estúpido na cara?
- Acho!
- Nota-se assim tanto?
- Nota-se. Não te preocupes.
- Como a história do pirilampo e da cobra?
- Exatamente.
- Quem sou eu?
- Como se tu não soubesses!? És o pirilampo, mas há poucas cobras à tua volta.
- Não sei se concordo contigo.
- Há poucas cobras, porque não sabem nada do teu brilho. Não lhes digas nada, se faz favor.
- Não, só falo contigo.
- Acho bem, afinal, já sou tua amiga -irmã há muitos desgostos.
- Desgostos de ambas.
- Sim, desgostos de ambas.
- Gargalhadas?!
- Também. As nossas gargalhadas incomodam muitas cobras…
- Ui! Achas que me ajeito com esta “coisa” da escrita?
- Acho. Sempre te disse isso, mas tu és muito preguiçosa.
- Não sou nada. Tenho a lucidez de quem já leu muitos livros!
- Pois. E és professora de Literatura e ensinas gramática e blá, blá, blá….
- Tens de arriscar. Faz de conta que é assim como uma relação amorosa.
- Ai, agora estragaste tudo: o exemplo da relação amorosa não é dos melhores. Dizes que eu amo com a cabeça!
- E amas.
- Então terei de escrever com a cabeça?!
- Geralmente é aí que tudo começa.
- Perdi o fio do teu raciocínio. Em que ficamos?
-É muito simples: amas com o corpo, com o coração e escreves com a cabeça.
- E o resultado será bom?
- Isso terás de ser tu a descobrir.
- Boa. Não sei por que é que estou para aqui a conversar contigo. Tu nem sequer és grande exemplo…
- O que não me impede de dar bons conselhos.
- Pois.
- Não consegues dizer mais nada?
- Não.
- Fiquei a pensar em corações, em abraços, em pele contra pele, em beijos….
- Pronto, já aí tens muito assunto para a tua escrita.
- E que faço à cabeça?
- Dói-te?
- Não gozes.
- Não estou a gozar. Queres que volte ao pirilampo e à borboleta, ou aos riscos que TENS de correr?
- Que é que faço aos sms e às cartas de amor? Nem sei se são de amor….
- Guarda-as no teu coração e, aqui e ali, podes usá-las na tua escrita.
- E isso não é desonesto?
- Não me parece. Com é que achas que fazem todos os escritores?
- Não sei, se calhar tens razão. Ninguém sabe da nossa vida, ninguém conhece a nossa vida como nós próprios.
- Aí tens. Estás à espera….
- Não estou à espera. Procuro um fio, uma linha…
- Fio? Linha? Falamos de escrita, não falamos de arrumações, nem de listas de compras.
- Então começo a escrever e depois logo se vê?!
- É um começo…
- Queres que te leia o outro sms?
- Não, não quero, mas tu vais lê-lo na mesma.
( os sms ficaram por ali o que não a impediu de  ver o sol a sul)



Sms  - 2ª Parte
Epílogo.
- Já decidiste como vais acabar a tua história?
- Não é minha, minha…é da minha cabeça, não sei: o que penso, o que oiço, o que vejo… .É igual a tantas outras.
- Pois. Eu sei, mas os sms, as conversas ao telefone…
- Cada vez mais curtas!
- E?
- Desisti da escrita!
 - Porque deixaste de receber sms, ou porque as conversas se tornaram cada mais curtas…ou talvez o sol tenha deixado de brilhar a sul?!!
- Estou a falar a sério. Olha lá, falaste na cobra e no pirilampo, a alguém?
- Eu?! Somos amigas-irmãs….
- Pronto, não te zangues!
- Então escreve, conta isso tudo!
- Isso tudo, o quê?
- As conversas mais curtas…
 - Mais espaçadas…. poucas palavras. Não recebo sms. Não, não é verdade! Recebi um, ontem
- Conta-me, vá, diz lá! Eu ajudo-te sobre a qualidade … da escrita. Tu sabes. Tudo o que fica marcado no coração, na pele.
- Foi assim: « Sabes, ando cansado, muito cansado, tenho muito trabalho. Às vezes deixo o telemóvel no carro. Tu conheces-me!»
- Também ele?! Era um sms diferente…
- Não, estas foram as palavras dele ao telefone
- E? Mais, conta mais!
- Não me parece só curiosidade pela qualidade da minha escrita, minha  menina !
- Continua. Tens aí muito assunto, desculpa. Estás triste?
- Estou. Perdi  o coração.
- Mana, o coração não se perde: parte-se! Às vezes para, mas só às vezes!
- Mas o sms …
- O sms?
- « Está sol no sul. Um bom dia para ti e abraços mais logo. Beijo Minha doce , Susana.”
- Agora, trata-te por Susana? Tens um pseudónimo?
-  …..
- Já percebi. Está no ponto. Começa a escrever antes que te esqueças ….
- Com a cabeça? Com o coração?
- Com a mágoa . Escreve um conto. Título : Está sol no sul. Um bom dia para ti e abraços mais logo. Beijo. Gostas? Toma lá  um lenço.
- E é só?
  - Sim, primeiro escreves, depois choras dois dias seguidos.
 - E depois espero pelo próximo…
- Pelo próximo?
- Desgosto amoroso, que te parece?
- Parece-me que não te faltará assunto!
- Com amigas como tu… desculpa, era um cliché!
- E a vida é feita de quê?
- Tens razão. Não contes a ninguém a história da cobra e do pirilampo. Por Favor!
- Até à próxima mágoa, aí está uma boa linha. Um fio.
- Para quê?
- .....

Pode o Amor ser tão Cruel IV - Está Sol no Sul. Epílogo (Sting)





Pode o Amor ser tão Cruel IV?
(sms - 1º parte)
Sms 
1ª parte
“Está sol no sul. Um bom dia para ti e abraços mais logo. Beijo.”
- Guarda essas palavras no teu coração, mana.
- Em que outro sítio as poderia guardar?
- Não sei, tu tens de passar sempre tudo a limpo, tens de organizar tudo. Só sabes sentir com a cabeça!
- Estás a exagerar, eu sou só emoção, lamechice, coração, festinhas e abraços.
- Talvez, depois de passar tudo pelo crivo do teu coração. Deixa-te ir. Arrumarás as tuas “coisinhas” amanhã.
- Não percebeste nada. Há muito tempo que não recebia um sms assim.
- E tens deixado? Por acaso, lembraste dos conselhos que me deste?
- Sou muito má conselheira!
- Não me parece. Depois de escalpelizares tudo até ao mais ínfimo pormenor, depois de “processares” tudo, como tu gostas de dizer, depois da cabeça, dizes tu, arrumada, então sim, permites algumas tréguas a ti própria.
- Oh, mana, fazes de mim um monstro.
- E não és?
- Não, não sou. Sou normal, como toda a gente: ressentida, cautelosa, tu conheces-me muito bem. Às vezes, não tens razão.
- Eu só te disse para guardares as palavras no teu coração. E que tal o sexo? Suponho que ainda gostes de sexo, não?
- Parva!
- E que tal o sexo?
- É bom. Eu gosto. Gosto das mãos, mas conheço pouco.
- Vês?! Lá estás tu! Deixa tudo acontecer, deixa fluir. Deixa a tua cabeça em paz. Gostas das mãos aproveita as mãos, sem grandes teorias.
- Se pensas que te vou contar, estás muito enganada!
- Não precisas de me contar nada! Mas se quiseres sou boa ouvinte…
- Quando passa a palma da mão….
- Ficaste com os olhos a brilhar.
- Fiquei?
- Sim. Isso é bom. Já te disse: “guarda as palavras no teu coração”.
- Achas que ando com um sorriso estúpido na cara?
- Acho!
- Nota-se assim tanto?
- Nota-se. Não te preocupes.
- Como a história do pirilampo e da cobra?
- Exatamente.
- Quem sou eu?
- Como se tu não soubesses!? És o pirilampo, mas há poucas cobras à tua volta.
- Não sei se concordo contigo.
- Há poucas cobras, porque não sabem nada do teu brilho. Não lhes digas nada, se faz favor.
- Não, só falo contigo.
- Acho bem, afinal, já sou tua amiga -irmã há muitos desgostos.
- Desgostos de ambas.
- Sim, desgostos de ambas.
- Gargalhadas?!
- Também. As nossas gargalhadas incomodam muitas cobras…
- Ui! Achas que me ajeito com esta “coisa” da escrita?
- Acho. Sempre te disse isso, mas tu és muito preguiçosa.
- Não sou nada. Tenho a lucidez de quem já leu muitos livros!
- Pois. E és professora de Literatura e ensinas gramática e blá, blá, blá….
- Tens de arriscar. Faz de conta que é assim como uma relação amorosa.
- Ai, agora estragaste tudo: o exemplo da relação amorosa não é dos melhores. Dizes que eu amo com a cabeça!
- E amas.
- Então terei de escrever com a cabeça?!
- Geralmente é aí que tudo começa.
- Perdi o fio do teu raciocínio. Em que ficamos?
-É muito simples: amas com o corpo, com o coração e escreves com a cabeça.
- E o resultado será bom?
- Isso terás de ser tu a descobrir.
- Boa. Não sei por que é que estou para aqui a conversar contigo. Tu nem sequer és grande exemplo…
- O que não me impede de dar bons conselhos.
- Pois.
- Não consegues dizer mais nada?
- Não.
- Fiquei a pensar em corações, em abraços, em pele contra pele, em beijos….
- Pronto, já aí tens muito assunto para a tua escrita.
- E que faço à cabeça?
- Dói-te?
- Não gozes.
- Não estou a gozar. Queres que volte ao pirilampo e à borboleta, ou aos riscos que TENS de correr?
- Que é que faço aos sms e às cartas de amor? Nem sei se são de amor….
- Guarda-as no teu coração e, aqui e ali, podes usá-las na tua escrita.
- E isso não é desonesto?
- Não me parece. Com é que achas que fazem todos os escritores?
- Não sei, se calhar tens razão. Ninguém sabe da nossa vida, ninguém conhece a nossa vida como nós próprios.
- Aí tens. Estás à espera….
- Não estou à espera. Procuro um fio, uma linha…
- Fio? Linha? Falamos de escrita, não falamos de arrumações, nem de listas de compras.
- Então começo a escrever e depois logo se vê?!
- É um começo…
- Queres que te leia o outro sms?
- Não, não quero, mas tu vais lê-lo na mesma.
(os sms ficaram por ali o que não a impediu de continuar a escrever e de ver o sol a sul)



Sms  - 2ª Parte
Epílogo.
- Já decidiste como vais acabar a tua história?
- Não é minha, minha…é da minha cabeça, não sei: o que penso, o que oiço, o que vejo… .É igual a tantas outras.
- Pois. Eu sei, mas os sms, as conversas ao telefone…
- Cada vez mais curtas!
- E?
- Desisti da escrita!
 - Porque deixaste de receber sms, ou porque as conversas se tornaram cada mais curtas…ou talvez o sol tenha deixado de brilhar a sul?!!
- Estou a falar a sério. Olha lá, falaste na cobra e no pirilampo, a alguém?
- Eu?! Somos amigas-irmãs….
- Pronto, não te zangues!
- Então escreve, conta isso tudo!
- Isso tudo, o quê?
- As conversas mais curtas…
 - Mais espaçadas…. poucas palavras. Não recebo sms. Não, não é verdade! Recebi um, ontem
- Conta-me, vá, diz lá! Eu ajudo-te sobre a qualidade … da escrita. Tu sabes. Tudo o que fica marcado no coração, na pele.
- Foi assim: « Sabes, ando cansado, muito cansado, tenho muito trabalho. Às vezes deixo o telemóvel no carro. Tu conheces-me!»
- Também ele?! Era um sms diferente…
- Não, estas foram as palavras dele ao telefone
- E? Mais, conta mais!
- Não me parece só curiosidade pela qualidade da minha escrita, minha  menina !
- Continua. Tens aí muito assunto, desculpa. Estás triste?
- Estou. Perdi  o coração.
- Mana, o coração não se perde: parte-se! Às vezes para, mas só às vezes!
- Mas o sms …
- O sms?
- « Está sol no sul. Um bom dia para ti e abraços mais logo. Beijo Minha doce , Susana.”
- Agora, trata-te por Susana? Tens um pseudónimo?
-  …..
- Já percebi. Está no ponto. Começa a escrever antes que te esqueças ….
- Com a cabeça? Com o coração?
- Com a mágoa . Escreve um conto. Título : Está sol no sul. Um bom dia para ti e abraços mais logo. Beijo. Gostas? Toma lá  um lenço.
- E é só?
  - Sim, primeiro escreves, depois choras dois dias seguidos.
 - E depois espero pelo próximo…
- Pelo próximo?
- Desgosto amoroso, que te parece?
- Parece-me que não te faltará assunto!
- Com amigas como tu… desculpa, era um cliché!
- E a vida é feita de quê?
- Tens razão. Não contes a ninguém a história da cobra e do pirilampo. Por Favor!
- Até à próxima mágoa, aí está uma boa linha. Um fio.
- Para quê?
- .....