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sábado, 4 de agosto de 2018
Stevie Wonder I Just Called To Say I Love You
Uma conversa telefónica pode não mudar o curso da tua vida mas tansformá- la, num segundo, num inferno.Eu gosto de falar ao telefone da mesma maneira que gosto de gin tónico, uma boa conversa, ou, às vezes, preencher o vazio dos dias muito ocupados de trabalho ou de trabalhos. Quando era muito miúda, utilizávamos o telefone para confirmar as banalidade do quotidiano, confirmar um jantar, perceber se estaríamos no bom caminho - frase que ainda hoje desconheço o significado - justificar uma ausência ou dizer que tínhamos chegado bem, ao nosso destino.Em casa dos meus avós existia um aparelho preto, imponente, achava eu, do qual muitas vezes dependia a alegria , ou a tristeza, dos meu avòs - o casal maias apaixonado que conheci. Os meus pais usavam-no senpre à mesma hora - o que achava extraordinário - para dizer que apesar de estarem em coordenadas diferentes se continuavam a amar e, claro está, controlar o cumprimento dos meus trabalhos de casa. Tenho recebido, por telefone as piores notícias: " tem um tumor maligno precisa de ser operadada com urgência", "não gostamos da lesão na sua mama esquerda", " a sua mãe não está bem, venha para o hospital quanto antes", além das banais "tem uma factura da Zon em atraso" ou o seu débito directo foi devolvido". No entanto, gosto de falar ao telefone, desde que não me insultem - um ou outro pretendente a namorado e um encarregado de educação mais boçais (como conseguirão eles o meu número de telefone, ainda é, para mim, um mistério), gosto das palavras de conforto dos amigos, dos carinhos sinceros em momentos de dor, ou, apenas, da banalidade da pergunta :"como tens passado?". Desde a África mais ocidental até à Europa mais oriental - sítios, ente outros, por onde passei, sempre a 'bem da nação' - o telefone tem sido uma companhia, um conforto, um abraço longínquo, provavelmente, mais sincero que muitos outros que tenho usado, ao longo da vida.Tenho, no entanto, dificuldade em entender, por que razão um telefonema se tornou , nos últimos tempos, num acto de 'desfazer orgulhos': "não lhe telefono, porque é ele ou ela estão em falta comigo", "não telefono, porque não posso mostrar fraqueza", "era só que faltava , ligar-lhe depois do que ele (ou ela me fez)", e o telefone que aprendi e me foi apresentado como um um qualquer electrodoméstico tornou-se
a) num consultório sentimental;
b) num fazer e desfazer de orgulhos;
c) num instrumento utililizado para controlar se B dorme com Y , ou A traíu - odeio esta palavra por ser tão falsa: que é a traição? ;
d) seja mais um elemento de destruição entre as pessoas.
Claro que vivemos momentos de grande dificuldade de comunicção entre os nossos, é certo que sem cinema, teatro, concertos, ou tertúlias , nos tornámos em verdeiros " Zazie dams le métro", mas que diabo, custará assim tanto pegar no telefone e dizer,apenas " I just call to say I love You?"
Mandem o argumento de que eu não sou deste tempo para o caralho, porque EU SOU DESTE TEMPO - ainda não morri, vivo há 59 anos nesta medida do tempo, e " no meu tempo é que era bom" é uma falácia, porque o meu tempo é hoje - hic et nunc - , porque é aqui que eu acompanho os meus filhos, dou apoio ao meu pai e vou beber um gin tónico onde quero e me apetece. Também é neste tempo que oiço Cure, Jacques Brel ou Modern Jazz Quartet. Sem esquecer o concero dos Scorpions - óptimo concerto, alíás, com o meu fillho João.
Foi neste tempo que me curararam o último tumor e é neste tempo que me reapaixonei pela Patti Smith - agora é que serei queimada no caldeirão daquela tela que faz parte do acervo do Museu das Janelas Verdes.
Não quero saber!
E, se a minha voz se fizer ouvir - dúvida que não tem importância nenhuma que exista - peguem no telefone e liguem aos amores da vossa vida : " I just Call to sayn I love You!"
Mais ou menos como os douradinhos da Iglo ou novos iogurtres que nos põe a faze cócó, porque " é tão natural como a sua sede"
Deixem-se de poses, esqueçam o feicebuque, organizem o Instragram e agarrem no telefone e digam "às vossas pessoas"que gostam delas..."
(Desculpa, mamã, mas disse-to tão poucas vezes, atenção, não é o remorso que me leva a escrever estas frivolidades, porque eu estive a teu lado, quando precisaste, tenho pena que não possas estar , mais vezes, aqui comigo. Histórias diferentes - e, se o tefone nos tivesse aproximado,ainda mais. " Mamã, ainda me achas bonita e interessante? Sabes, eras a única pessoa a quem poderia perguntar, sem pudores, estas perguntas tão sem sentido.)
https://youtu.be/ILbUdPUO8PE
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
A resposta que se impunha.
A resposta que se impunha.
Meu amor - que ironia.
Felicidades e muito sucesso.
Meu amor - que ironia.
Mandam as regras da boa educação e, considerando o teor assustador do último email, informar-te que, pela gravidade que a minha lesão na mama esquerda apresentava, os médicos anteciparam os exames, assim, fiz todos os exames e análises necessários no dia 14, no Hospital da Luz. Na realidade, a lesão é grande, mas não apresenta qualquer grau de malingnidade, terei de fazer, com regularidade, os exames de rotina normais e nada mais.
Também não foi desta que o cancro me apanhou....
Estou em paz e serena.
Dou-te esta informação, não por considerar que a minha saúde seja uma das tuas preocupações, mas, porque a minha consciência assim mo ditou.
A vida continua.
Sê feliz e continua a fazer bons programas de rádio.
Sê feliz e continua a fazer bons programas de rádio.
O "nós" - se algum "nós"- terá existido fica por aqui.
Adeus.
Não preciso do teu "lacónico" e habitual obrigado.
Deixa-te estar.
Se, por mero acaso, nos encontrarmos, dispenso as tuas saudações.
Agradecida
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Sting - If You Love Somebody Set Them Free
Carta de um amor doente.
Escrevo-te uma espécie de carta de amor, das tristes. Das cartas que falam e pedem o amor. Um amor, nosso - um último reduto a necessidade de te dizer que o meu amor por ti é deixar-te ir pelos teus próprios passos, pelas tuas escolhas, até porque são sempre essas que valem e têm razão de existir. Vai, amor meu, que nunca foste, nem amor. Amor meu, se foste de alguém não sei. Que sabemos nós dos outros, ainda que gostemos de ouvir o mesmo concerto de obué?! Eu não aprecio obué, mas eu tenho mau feitio e, por vezes, mau gosto - tu és o meu mellhor exemplo. (Não gosto de obué, mas isso, deve ser, porque sou muito ignorante e, por favor, não me queiras ensinar mais nada, além do ângulo mais sensual- agora, que de nada me servirá - das tuas pernas a roçar nas minhas, não me apetece aprender mais nada.) Desculpa a minha sinceridade, nunca leremos os mesmos livros. Com ou sem sofeguidão, o que nos interessava era aprendemos a melhor maneira de nos aproximarmos, quando a noite é quase o dia seguinte e, ainda insistimos em gemer na boca um do outro.
Dizia-te
que esta carta de amor é uma carta de amor, um pouco menos ridícula do que as
cartas de amor, as habituais...Despeço-me de ti, vou deixar-te, não porque já
não aprecie o ângulo do teu abraço no meu peito, nem da tua língua
atrevida a insistir um cantarolar incompreensivel.Tu cantas bem, a tua
língua desafina um bocadinho, mas isso nunca me incomodou.
Despeço-me de ti, porque estou doente,
pertenço ao grupo de pessoas sobre quem todos fazem estatísticas, compram perucas,
alvitram menus alternativos e, até oferecem passes em spas extraordinários.
Estou doente, tenho uma lesão jeitosa na mama esquerda e se, tudo correr
bem,ainda poderei ter as mamas com que sempre sonhei e usarei chapéu as
todas as horas do dia pondo em causa o protocolo da avó Mariana.
Vai para os braços de uma
Teresa, de uma Sílvia ou de uma Henriqueta, jura - ao contrário da canção do
Rui Veloso - que irás ter muitas aventuras, talvez te cases, sejas feliz e
compres um apartamento com terraço e janelas de alumínio.
Não te quero comigo, não aguentarias as agulhas espetadas, a cabeça rapada, o vómito que não cheira a gin, nem a tequilha, a cor pardacenta, as mamas riscadas numa cicatriz brutal.
Dá-me a única prova de amor - que afinal nunca sentimos um pelo outro - e vai para a tua vida tão banal e suburbana , quanto a minha: apenas diferem nos acordes do Satie e no refrão das cantigas da Laura Pausini.
A partir de hoje, estás proibido de (tentar) gostar de mim, ou de me incluires em qualquer playlist ou pensamento mais lúbrico. Por favor, deixa-me desaparecer, para sempre e pensar que terás uma bela família com perú no Natal e prendas no dia do teu aniversário.
Eu estou bem, acredita, quando no colégio imitava a Marisol estava muito longe de imaginar que a vida me daria o amor de uma vida, filhos bonitos, e casas de janelas rasgadas e luminosas com vista para os rios que correm na minha aldeia. Não sei se tive tudo da vida, espero ter muito mais, mas não fiques à minha espera para jantar.
Recebe o meu beijo.
Recebe-o ao som do Abrunhosa ou da Adriana Calcanhoto, a escolha é tua.
Talvez demore.
Adeus.
Não te quero comigo, não aguentarias as agulhas espetadas, a cabeça rapada, o vómito que não cheira a gin, nem a tequilha, a cor pardacenta, as mamas riscadas numa cicatriz brutal.
Dá-me a única prova de amor - que afinal nunca sentimos um pelo outro - e vai para a tua vida tão banal e suburbana , quanto a minha: apenas diferem nos acordes do Satie e no refrão das cantigas da Laura Pausini.
A partir de hoje, estás proibido de (tentar) gostar de mim, ou de me incluires em qualquer playlist ou pensamento mais lúbrico. Por favor, deixa-me desaparecer, para sempre e pensar que terás uma bela família com perú no Natal e prendas no dia do teu aniversário.
Eu estou bem, acredita, quando no colégio imitava a Marisol estava muito longe de imaginar que a vida me daria o amor de uma vida, filhos bonitos, e casas de janelas rasgadas e luminosas com vista para os rios que correm na minha aldeia. Não sei se tive tudo da vida, espero ter muito mais, mas não fiques à minha espera para jantar.
Recebe o meu beijo.
Recebe-o ao som do Abrunhosa ou da Adriana Calcanhoto, a escolha é tua.
Talvez demore.
Adeus.
sábado, 22 de abril de 2017
Nem todo o lixo é reciclável.
https://youtu.be/--DbgPXwLlM
Nem
todo o lixo é reciclável.
À
direita, as manchas castanhas de um lodo que, ainda, não espelha o
céu. Sopra um vento frio e ao sol, por enquanto, não lhe interessa
celebrar a primavera – a natureza tem destas coisas: o sol não
aquece como soía. Encolho-me num banco de veludo azul muito coçado. Gosto muito de andar de comboio - «Prefiro
rosas, meu amor, à pátria», dizia o poeta. Eu prefiro comboios.
Encosto-me e sinto a cabeça a latejar. Um latejar sem fim.
Quando olho o meu reflexo no vidro da janela vejo um
rosto esverdeado de óculos escuros e, se olhar bem, ainda decifro as
rugas de tristeza e de inquietação que se vão acumulando. Através
deste reflexo consigo ver o mar. Oiço o alegre vozear de quem
vai eufórico para mais um fim de semana. A meu lado, sentam-se
homens que falam com aprumo o linguajar do sul, têm o rosto
queimado pela luz das marés, à minha frente, um grupo de
adolescentes, desses que são iguais em todo o lado.
Tudo
comum, banal e corrente.
O
tempo passa e nós permitimos a sua passagem
Às
16h15m, comi dois rissóis (as empadas eram da véspera, obrigada,
menina, foi muito gentil),e meio litro de sumo de frutos
vermelhos. Talvez fumasse um cigarro. Às 16h24m partimos para a
última estação desta linha de comboio, a essa hora começará
doer-me a cabeça. Sinto a cabeça e os olhos não me pertencem. O corpo reage a este frio, o cansaço não pediu licença e
sentou-se. Não é hábito conversarmos: gostamos de não ter
assunto. O caminho demorará pouco mais de 1h30m. É nestes momentos
que penso no silêncio, ou em ti, por exemplo,
Venho
das casas da cidade um emaranhado de ruas e avenidas largas
organizadas por rotundas. Oh! Gloriosas e redondas rotundas. (os
espanhóis chamam-lhes glorietas – é mais bonito!) Escondido,
imponente e doentio, arruma-se o hospital. Um grande e feio hospital,
não sei se o hospital é feio, porque é um hospital ou porque o
arquiteto não gosta de desenhar hospitais.
Penso
na palavra envelhecimento e nem me vem à memória «nenhuma frase
batida», apesar de saber que hoje é o resto da minha vida.
Insisto
em envelhecer : as marcas que a inevitabilidade do tempo, deixa nas
mãos, nas pernas, na cabeça, na pele.
(Afinal,
o casal francês era muito antipático, ensinei-lhes na sua
língua nativa o nome da estação onde deveriam descer,
expliquei-lhes que
as praias de Sotavento eram muito bonitas e calmas...areias brancas,
mar azul, um barquinho para mostrar recantos mágicos da Ilha
Formosa, falámos de
política da Senhora Le pen, também não gostavam dela, ainda referi
chocada o tiroteio aux Champs Elysées,
não conheciam, não sabiam de nada, estavam
de vacances à cause de notre retraite e
quando se apearam na Fuzeta eu já não existia – quand on est con,
on est con,
voilà!)
Volto
ao pautado
do
meu caderninho azul. Escrevo
‘Felizmente,
está a envelhecer bem.’ - uma daquelas frases que não fazem
sentido. Ninguém
é feliz, porque envelhece. Ninguém
envelhece felizmente.
Envelhecer
é uma merda – o corpo trai-nos: perdemos a vontade, o desejo, os
sonhos, as pessoas, algumas palavras.
Adoecemos;
precisamos dos hospitais. O hospital que ficou para trás e onde se
adoece e se envelhece e se vive... Talvez devêssemos ficar por aqui:
antes do tremor nas mãos e dos
pulmões mirrarem. Não me lembro de ver crianças. Não havia
crianças nas salas por onde passei. Quase irónico o sorriso a que
me agarro.
Salas enormes onde uma velhice assexuada mal respira. Há dor,
gemidos, sangue, batas de várias cores, estetoscópios
(obrigada,
Priberam) e o
lixo
– farrapos de pessoas que já não prestam – e do outro. Ali,
estendida e sem veias imagino que esteve uma bonita mulher, uma
cabeleireira, uma
secretária, uma boa mãe, ao lado, e debaixo de um lençol
imaculado, está um professor, talvez, um hábil carpinteiro,
percebem-se os ossos sem pele através dos tubos, das máscaras. Um senhor desequilibra-se, ajudo-o com o urinol
de cartão pardo:« - Deixe estar, menina, o resto faço eu.»,
ri-se, eu não tenho essa coragem. Olho,
mais uma vez, - macas alinhadas contra uma parede, cortinados azuis,
mãos
diligentes,
gestos
profissionais, alguma ternura,
agulhas e luvas descartáveis. Não tarda virá, antes
da próxima ampola de antibiótico,
o suspiro que os levará para outra cama qualquer. Não gosto desta
sala. Não
gosto destes farrapos, assim,
farrapos
humanos. Não gosto do que resta das
mãos que faziam a melhor compota de laranja do mundo, não gosto do
que resta do riso fácil.
A
dor
de cabeça ficou,
fazem-me
companhia as laranjeiras, vários apeadeiros e um casal de
holandeses, não nos é indiferente o volume obsceno do toque dos
telemóveis “ultima geração”.
Regresso
à sala das muitas camas e
despeço-me
- «Felicidades, menina. Que Deus Nosso Senhor nunca lhe falte. Vá
com Deus, deixe estar a sua mãezinha adormeceu, estava cansada,
coitadinha. » Agradeço os
votos. Agradeço a dignidade
e a luta desigual.
«Olhe, menina, pode ser que nos encontremos, por aí. Quando for a
Albufeira, não se esqueça: é
a velhota da casa amarela. Que nada falte aos seus meninos. » Não
esquecerei.
Não me esquecerei da casa amarela, dos velhos, nem daquela sala de
doença e lixo.
Faro/Vila
Real de Santo António, 21 de Abril de 2017.
(Releio
o que escrevi e páro na palavra lixo,
penso em apagá-la, não
a apago:
não posso deitar fora a miséria, a doença, o abandono, a morte.
Na capa deste caderno onde escrevo pode ler-se apalavra VIVER.)
Envelhecer
é uma Merda!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
O meu natal ou a Senhora do Chapéu.
![]() |
Pintura de Sandmann Corte-Real |
O meu natal
ou a Senhora do Chapéu.
Venho da rua, venho do centro das luzes da
confusão em sacos com embrulhos, dos flashes das selfies, dos gritos das pressas
dos encontrões. Este ano não andei à procura de presentes, não organizei lista
de compras, não comprei guardanapos de papel encarnados, não decorei a casa -
há em cima de uma prateleira, entre dois castiçais que moram neste casa o ano
todo e uma caixa chinesa, uma estrela de natal, tem umas folhas encarnadas e
uma folhas verdes a quem a resiliência não assistiu e amareleceram, acabando
por murchar e cair – não tenho uma árvore verde a acender e a apagar, não
espalhei presentes pela casa, não expus cartões de Boas Festas (ainda se recebem postais com sininhos e trenós?) tirando
a mancha encarnada, pode dizer-se que cá em casa não entrou o natal. Estarei
doida? Demente? Descrente? Indiferente? Infeliz? Farei parte daquele grupo que
não festeja o natal, porque o mundo se tornou um lugar horrível e eu tenho de
ser solidária e sofrer até todas as peles do polegar sangrarem? Ter-me-ei
tornado uma pessoa (ainda mais) cínica? Não sei. Vivo o natal desde que
respondo pelo nome que vem no Cartão de Cidadão. Ainda oiço as gargalhadas à mesa
na noite da consoada. Nunca comi muito, mas ficava eufórica com a mesa a cheirar
a fritos, lambia nos dedos a calda que
escorria das filhós, depenicava a posta de bacalhau e sempre me foi permitido
comer - “deixem lá a miúda comer o que quiser!” - uma transparente posta de bacalhau
pingada com azeite e sem couves e outras tradições. No meu natal – o que guardo
e me aquece – havia tudo: árvore com bolas de vidro, luzes, presépio com musgo
e a esperança de que mesmo que tivéssemos tido muitos erros no ditado ou
pronunciado o“tal” nome feio, o Menino Jesus não se esqueceria do nosso
sapatinho à chaminé. E se era grande a chaminé! Havia sempre o que eu tinha
pedido, muitos abraços, muito colo, muito rir, muito vinho, gente, burburinho
e fantasia. Durante algum tempo, fui a única menina a pôr o sapatinho à chaminé.
Depois vieram outros meninos. A mesa aumentou e os preparativos começavam mais
cedo, tornei-me cúmplice da surpresa que
o Menino Jesus traria para os primos, continuámos a estrear todos uma roupa
melhorzinha (malditos sapatos que apertavam os pés, já, chatos, e educados
pelas botas horrorosas da Lisbonense!), as mulheres iam ao cabeleireiro e na
cozinha a mesa estava sempre posta. Passei um Natal num hotel em Sevilha,
coisas da política que eu só percebi com 15 anos. E, mesmo já mulher independente
e petulante continuei a celebrar o Natal. Atravessei várias águas para comer o
peru recheado pela minha mãe e passei aos meus filhos a euforia do feliz
encontro de uma família divertida, unida, comilona e muito generosa.
Ensinei-lhes, sem missa do galo, que o natal era encontro, abraços apertados,
surpresas e cumplicidade. E foi assim até…até há dois, três anos. O ano passado
foi quase igual – quase – igual aos outros natais de gargalhadas e luzes a
piscar.
Este ano despejei 8 euros na mão da florista
trouxe a tal estrela para casa: “Pronto, meninos, aqui está o nosso ‘apontamento’
de Natal”, “ É de plástico?”, “Não, não é de plástico. E ficará viçosa até Junho. “ Enganei-me, mas isso também não tem importância. Este ano, teremos um
natal diferente. Ou a festa será, apenas, diferente. Fui à Baixa, vi as luzes,
comprei um presente e daqui a pouco vou guardar numa mala de viagem uma escova
de dentes e umas camisolas quentinhas. Vou para sul. Vou receber o meu abraço.
Não estou infeliz, não sinto o vazio de não
ter natal com 20 pessoas à mesa, nem choro lágrimas saudosas e sofridas. Estou
em paz. O natal mudou: morreram-me avô, avó, primos e tios, morreram-me amigos e na
mesa de jantar dos meus pais mal cabem cinco pessoas. Irei à terra como tantos
outros lisboetas que não nasceram na Maternidade Alfredo da Costa. Encontrarei
os meus amigos. Daremos gargalhadas à beira-rio. Comeremos bacalhau, Bolo Rei,
broas e chocolates. Somos poucos, por isso, em vez de peru haverá um capão
recheado.
Vim da rua, dos atropelos. Na Praça de
Comércio há uma árvore gigante, olhei-a de soslaio. Vinha a pensar numa miúda,
muito jovem, pintora, que espalhou pela Rua do Carmo a sua arte. Comprei-lhe
uma tela pequena, uma mancha de azul Klein e uma cabeça feminina com um chapéu.
Chamámos-lhe A Senhora do Chapéu. Nos
momentos que conversei com ela, percebi-lhe a força e a vontade. A miúda tem um
bom traço. E tem. Gostei dela e do seus dezoito anos de verdade e vaidade. (Tenho
esta mania de comprar coisas na rua, quadros, fotografias, bijutaria e de ficar
à conversa com quem vende o melhor que tem.)
Chego
a casa, ligo o rádio, chegam a música e as vozes preparo um Gin Tónico – em balão,
como deve ser – e ponho-me a escrever. Afinal, o natal, não, não é quando um
homem quiser o natal é o que um homem quiser que ele seja. Nos corações.
Na esperança.
Como poderei estar infeliz ou sentir-me sozinha?
Como poderei estar infeliz ou sentir-me sozinha?
Árvore de natal para quê? Tenho o coração
quente e memórias sorridentes, sem rabanadas, nem broas.
É a vida - a minha vida e gosto dela assim.
É a vida - a minha vida e gosto dela assim.
(confesso que com o entusiasmo da Senhora do
Chapéu, esqueci-me do gin, do gelo e da água tónica, a base do balão é uma poça
de gelo derretido azul e redonda)
terça-feira, 1 de novembro de 2016
No dia dos mortos. Para a Paula B. e para a Paula Guerreiro que não tem feiecebuque
https://youtu.be/Ik8ktuRwIRo
No dia dos mortos.
Quem me conhece sabe que não sou de celebrações religiosas, não
vou à missa, não tenho santinhos, não guardo relíquias da Nossa Senhora de Fátima e não entendo
o significado da palavra pecado, mas entro nas Igrejas, porque - mesmo as mais
'modernaças' - são sítios lindos e muito frescos no Verão, não rezo (acho que
nem sei!), e tenho uma forma particular de olhar para o Divino. Celebro o Natal,
porque sempre o associo à minha infância feliz e porque a minha mãe faz o
melhor perú recheado do mundo. No dia de Natal, quando estávamos todos juntos, o almoço arrastava-se para o
lanche que, por sua vez, se comia à ceia e as gargalhadas eram muito melhores
que as prendas que todos recebíamos, também "montava" a árvore de
Natal com o meu avô, esses são os momentos que guardo com muito amor e ternura
de um dos meus mortos mais queridos. Todos temos os nossos mortos, todos temos
os nossos mortos mais felizes. Se, com a morte dos meus avós, aprendi o
significado da palavra perda, também, foi com a morte de ambos que aprendi a
respeitar e amar todos os mortos que, por mim, já passaram, estranha frase
esta! Gosto de todos os "meus" que morreram. Amo a recordação que
tenho deles, a felicidade que com eles vivi e aquilo que de bom me deixaram -
não tenho mortos que me tenham feito mal ou não gostassem de mim e eu deles,
creio que acontece o mesmo com toda a gente! Mas o que aprendi de mais completo
e, por isso, tão sério e íntimo é o não temer a morte. Sou "uma temerária
muito católica”, como alguém me chamou, um "não digas isso filha, que Deus
castiga," ou, ainda, uma tola armada em corajosa. A ideia da morte - da
minha morte - entenda-se - não me assusta. Não saber o que está além, no outro
lado, ou se há Céu ou Inferno deixa-me alguma (muito pouca) ansiedade, ou
melhor, uma grande curiosidade. Serei uma herege, ou uma mulher pouco
inteligente, ou mais alguns epítetos, aceito-os e respeito-os todos - insultos,
lamento, mas não oiço! E, diga-se, passo o cliché, tenho mais medo e respeito
pela vida. E, se amanhã não acordar? Sim. É verdade, não pagarei as contas, nem
corrigirei testes, mas que vida não deixo por viver? Espero acordar viva,
amanhã e mais algumas madrugadas? Então, como viverei eu? Como serão os meus
melhores momentos? Como conseguirei viver os mais difíceis? Que posso eu fazer,
bem, com estes sóis e estas chuvas que estão para chegar? Ui! Pensando bem,
este maldito hábito de pensar! É da vida, da vidinha e das outras vidas menos
pindéricas que eu tenho medo. Medo, medo, não tenho.
Tenho pavor!
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Regressso à escola
Regresso à escola, regresso aos "meus" meninos do 8ªAno.
( no 8ºAno, então quarto ano dos liceus, era tão parvinha!!!!)
A temperatura é elevada, as salas tresandam a hormonas, há 'beijinhos' e abracinhos agarrados ao meu pescoço, risadas, mãos suadas, olhos a brilhar «Tivemos saudades suas, Está tudo bem? Já se sente com força para trabalhar? A stôra não teve um cancro ou uma coisa dessas? (viva a sinceridade dos 12 anos!) Já consegue estar tão gira? Olha tem uma tatuagem! Nunca tive um stôr tatuado! Já sabíamos que era nossa stôra, sabe, nós gostamos de si, às vezes, grita um bocadinho! Nâ,nã grita nada! Nós somos bué chatos! É este ano que nos leva ao teatro? E ao cinema ? E vamos comer o gelado do ano passado? Desculpe o atraso, mas posso dar-lhe um beijinho? Vi a Stôra na praia! Vamos ler muitos livros este ano? E a gramática? Prometo, este ano, portar-me tão, tão bem,,,Prometo que não interrompo as aulas e faço os tpcs, prometo stôra, este ano sou outro Manel! Stôra, stôra, posso ser eu a sua secretária? Eu! Eu! Oh! Stõra eu tive 5! Já vai marcar os testes? Tem a certeza...» Certezas, cada vez tenho menos, e, se não fossem todas estas perguntas, o meu dia, hoje teria sido, apenas, mais um dia de trabalho. Não foi. Cada vez tenho menos certezas: não sei se a minha disciplina lhes trará alguma felicidade, não sei se os muitos noventa minutos que teremos pela frente o resto do ano serão de entusiasmo e alegria, não sei se ficarão a perceber a utilidade de um complemento oblíquo, ou se daqui a meia dúzia de anos se lembrarão das rimas cruzadas e emparelhadas, nem tão pouco se conseguirão distinguir um verbo de uma preposição. Não sei, nem sei se tudo isto terá alguma importância, não sei e passo a arrogância socrática (falo do filósofo grego, claro!), e, confesso, que, neste momento, nada disso me interessa. Hoje, foi um dia de trabalho feliz.
Amanhã, logo se vê!
(Também não me lembro de ter tido algum professor tatuado, se calhar tive, estaria escondida e talvez dissesse : Amor de Mãe. Guiné 72 e por cima, muito bem desenhada a cor de rosa e azul um rosto de mulher. Não sei! Fica a dúvida!)Amanhã, logo se vê!
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