terça-feira, 2 de setembro de 2014

O exame de Ciências Naturais




O exame de Ciências Naturais

O calor batia-lhe nas costas, conseguia ver a sua sombra desenhada no chão, a ponta do pé direito encostada à cabeça, o ombro esquerdo colado a um dos lados da laje rosada. Em redor, as vitrinas, as escadas, as paredes verdes. Uma janela com o vidro cortado ao meio por um fio de telhas, a desafiar o céu, à sua frente. Esperava. A sua ansiedade, uma vez, a salvar o miúdo. Chegar quarenta e cinco minutos antes do exame foi quanto bastou para não o perder. A campainha tocara há instantes e, naquele momento, precisou de uma fé, de acreditar num deus, uma divindade que soprasse aos ouvidos do miúdo as respostas certas ao questionário de muitas páginas. Sabia que o miúdo tinha um anjo da guarda. Como toda a gente. Olhamos para o céu, gostamos de uma nuvem e escolhemos o anjo que nos acompanhará a vida inteira. Sabia que os seus miúdos já tinham olhado para o céu. Ciências Naturais, três anos de Terra, pedras, meio ambiente, cadeia alimentar, corpo humano, doenças sexualmente transmissíveis. O miúdo esforçou-se. Ela sentia-lhe o frio no estômago, a transpiração nas mãos. No caminho desejou que o dia de hoje fosse feriado, nem lhe explicou que os santos e as revoluções não apagam as responsabilidades. Ontem, antes de adormecer, disse-lhe que estava nervoso, não te vou dizer se me correu bem ou mal, não me perguntes nada, esqueceu-se de acrescentar é a vida que escolhemos. Esperava. Fugia do sol, apoiou-se no pilar cinzento de pedra, reparou que o Scarlett das unhas começava a estalar, desejou ter um computador, um ipad. Poderia trabalhar. Escrever é tão difícil. Admirava os escritores, os músicos, os pintores. O trabalho salva-nos, a arte também. Na tarde parada no seu tempo de mãe não passava ninguém. Nada acontecia. Conseguia ouvir as conversas das funcionárias, a telenovela, a receita de uma sobremesa rápida, uma irmã que morava em França que não viera de férias. Esperava. Apareceu um miúdo muito bronzeado, perdido, a perguntar pela professora com quem combinara encontrar-se, pode dizer-me as horas? Sabe onde é a sala vinte? Uma miúda muito loira de minissaia de ganga pegou-lhe no braço e levou-o. O director já chegou, vamos. Ouvia pela terceira vez, dia doze, as aulas começam dia doze, a funcionária que respondia tinha  voz de locutora de televisão, uma permanente apertada mostrava que estava preparada para o início do ano lectivo. Pensou no miúdo, fazia hoje dezasseis anos, estava a enfrentar uma prova de fogo. Talvez, a primeira. Os sentimentos confundiam-se.Tristeza, orgulho, alegria. Benvindo ao mundo para maiores de dezasseis anos. Está a crescer. O miúdo, trinta centímetros mais alto, aprendia as primeiras palavras. O telefone continuava a tocar. O sol afastou-se um bocadinho, poderia sentar-se no muro mais fresco, ver o movimento da cidade, ao fundo do átrio, num rectângulo estreito e alto. Não percebia os contornos, mas via passar o ruído, homens, mulheres, crianças, autocarros, automóveis. Na tarde quente o vento que mal levantava os vestidos e os cabelos refrescava a ansiedade e a espera. Olhou para os quadrados perfeitos do chão, a sua sombra tinha desaparecido. Um homem e uma mulher conversavam à sua frente, olharam para ela, encolheram os ombros, franziram a testa. Não lhes explicou nada. Começava a doer-lhe a mão. E a esferográfica? Teria o miúdo trazido esferográfica? Com os dentes puxou as peles do polegar direito. Arrancou uma pele mais a jeito e o sangue apareceu da cor da unha. As vozes eram barulho. Incomodavam-na. Esperava.

Quando se acorda com dezasseis anos, um exame numa tarde quente de Setembro é uma lição.

Ela esperava.                                                                                            

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lugar número três.





Lugar número três.

    Marcou o livro na página cento e vinte e dois, “ Wallander sentiu-se irritado por ela se meter na conversa”, mais tarde perceberia a irritação de Wallander. Encostou a cabeça ao vidro e deixou-se ir, percebeu o calor que seria o dia seguinte, o céu tinha as marcas do sol e ao longo da estrada, desprendia-se da terra o castanho desbotado, o verde salpicado de azul anil e o  laranja aceso. Um Alentejo longo desviava-se do mar e roçava, sem pudor, aquele céu quente de um domingo de Agosto. Para trás, ficou o mar prateado, luminoso, as casas desordenadas, o areal estendido na preguiça da tarde de verão. As cores do fim de tarde confundiam-se com as luzes que se acendiam e os faróis que riscavam de encarnado a estrada cinzenta. O azul do céu escurecia a noite não tardava, o fogo do entardecer esmorecia no horizonte. Insistentes. As luzes da cidade aproximavam-se. O Tejo não tardaria. A sua rua viria em seguida. A casa abriria o silêncio, o cheiro leve a sândalo, as sombras desapareceriam, quando rodasse a chave na fechadura. A dor no peito continuava a fazer-lhe companhia, abrandou na estrada, diluiu-se no entardecer, mas voltou com o silêncio e o sândalo. Perdera a conta aos sonhos, às esperas, às expectativas. Fininhas. As dores perseguiam-na mais que a sombra, mais que o amor. Não percebia, não adiantaria cruzar os braços, fechar os olhos, encolher os olhos, esconder-se no fundo de uma gaveta. Não era estar só. Ser só. Arrumar a solidão. Não. Explica-se uma dor de cabeça com Paracetamol, como se resolve a dor de todos os dias? O peso? O medo? O que fazer a seguir? Pensas demais, dir-me-ias, se tivesses nascido inseto a tua vida seria breve, sem emoções, sem alegrias. Segue o teu caminho, lembra-te da poesia, dos dias de sol, das tuas vitórias, insistirias. Não te daria ouvidos. Nunca o fiz. Ergueu a cabeça, arrastou as malas para o canto da sala, aqueceu o jantar do miúdo. Abriu o correio. Nada de novo, também não estou à espera de notícias. Sim, chegámos bem e fizemos boa viagem. Não, não havia muito calor, sim… Ar condicionado, gente bem-educada. O miúdo dormiu tranquilo, recomeça a estudar amanhã. Claro, continuarei a telefonar todos os dias. Uma noite descansada. Até amanhã. Sentou-se a olhar para as mãos manchadas pelo tempo. Afastou a passagem do tempo, respirou fundo… amanhã, terça-feira, quarta-feira, acabar o trabalho, a vidinha marcada no calendário, encetar outra rotina. Aprenderia a respirar, cortaria o cabelo, veria os episódios gravados de True Detective, um filme ou outro, aguardaria o resultado dos exames. Que farei a seguir? Insolente, a dor voltava. Perfeita e redonda. Incómoda. Já é muito tarde, vai dormir. Não te esqueças de lavar os dentes.

Quando adormeceu ouviu o vento arrastar os contentores do lixo, ventoso, mas muito quente, o dia, amanhã, ainda é agosto, verão…

sábado, 16 de agosto de 2014

Resgresso à casa - o corredor (continuação)

Andrew Wieth




O corredor.

Regresso à casa. Entro pela porta principal de madeira, ferro e postigo de vidro rugoso. Os pés saltam o degrau de pedra e, um atrás do outro, desenham triângulos, quadrados e retângulos nos mosaicos pretos, brancos, cinzentos. A mancha regular desenhada com mestria era o longo corredor. Teria sete ou oito metros de comprimento, mais ou menos dois de largura e era por ele que a vida passava, entrava e se instalava. Eu e os meus pés pequeninos inventávamos mil histórias, viagens, partidas para destinos desenhados ao milímetro, impostos pelas dimensões de cada um dos mosaicos. De joelhos, contava as esquinas, as vezes que a cor preta se repetia, em que quadrado surgia a cor branca, abria as mãos e media os palmos que separavam a porta da rua, da porta do escritório, imaginava o que mais tarde percebi serem linhas diagonais, e corria  os indicadores pelo  rodapé, moldura  suave, lisa e fria fita cinzenta, que  separava a mancha escura do chão, do tecido claro esbranquiçado da escaiola da parede, rematado com os laços encarniçados, iguais, em todas as outras paredes da casa. Aquele longo corredor mudava de cor ao longo do dia. Ao longo do ano. Quem entrava na casa, nos dias frios e chuvosos, de inverno, sentia o conforto de um horizonte seco, quente e confortável de luz filtrada pelos vidros coloridos do postigo, que desenhava formas no preto mais sombrio e no branco mais frágil, dos mosaicos do chão. À direita, um bengaleiro com um espelho oval e ganchos de metal permitia pendurar, sem pressas, os casacos e os guarda-chuvas. Nos dias menos luminosos, aquela armação de madeira, espelho e ferro era a personagem principal das minhas histórias de fantasmas e lobisomens. Encostava-me à porta de madeira-mel  do escritório e via criaturas enormes, braços a agarrar seres sem forma, gotas de água do tamanho de lagos. Ficava quieta, calada e muda a admirar aquela gente extraordinária. Eu era a menina, única criança da casa, não apreciava bonecas, nem tachinhos, nem panelinhas entretinha-me a falar com tudo que em meu redor pudesse transformar em histórias com fadas, gigantes, e outras pessoas que só eu tinha o privilégio de ver e ouvir. O corredor não era o meu lugar da casa, mas era o sítio, que pelas suas dimensões, mais voltas ao mundo me permitia dar. Nos dias mais quentes de verão, aquele corredor era fresco, arejado e brilhante. As sombras eram substituídas por manchas coloridas que desfaziam o calor e o bafo quente do Suão. Nesses dias, sentava-me num banquinho a ver o chão mudar de cor, abrigada do calor, sem tempo e no silêncio, apenas, interrompido pelo ritmo das tarefas domésticas. Mas esta criança não se cansa de estar e falar sozinha? De facto, eu não estava só e não percebia a estranheza de falar sozinha. Se, mais tarde, os livros do escritório me salvaram e mantinham comigo conversas intermináveis, neste tempo, o corredor que mudava de cor e luz foi uma das minhas melhores companhias. A porta guarda-vento de vidros coloridos em semicírculo, as portas dos quartos, do escritório e da sala de jantar, de madeira mel, os vasos de ferro que escondiam o barro e as raízes dos fetos, das sempre-vivas e dos cartuchos, as floreiras de pé alto e uma cadeira de braços estofada compunham o corredor. Quem entrasse na casa não ficava indiferente às simetrias desenhadas no chão e nas paredes, ao viço das plantas, nem às cores dos vidros, que nos empurravam para a sala de estar, grande e solar  a completar a harmonia que se adivinhava, quando a porta número sessenta e seis, na rua Conselheiro Frederico Ramirez, se fechava.





 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Na esplanada





Na esplanada.

 Este ano o vento varre mais depressa as palavras, as gargalhadas diluem-se e as razões que, por vezes, se desencontram, desaparecem na temperatura que este ano desceu nas mesas e cadeiras onde todos os anos sentam o inverno e as dores que viveram. Todos os anos, há histórias diferentes, um elemento novo, um amigo acabado de chegar, uma sombra para contar, o peso de uma morte. Celebra-se um ciclo que acaba e fazem-se planos para o ciclo que virá no primeiro dia de setembro. Ela gostava daqueles encontros, com mais ou menos vento, as noites cálidas do Suão que tudo arrastava eram as suas preferidas. Não se expunha, contava histórias, nunca as suas, ria e fazia rir. Bebia um copo de vinho. Ajudava às gargalhadas e ouvia as gargalhadas dos outros. Este ano vem mais séria, mais fechada, mais triste. Ouve as histórias, partilha as gargalhadas, conta um, ou outro dia mais longo, esconde as lágrimas e senta-se no lugar mais afastado da mesa, numa ponta, numa cadeira que procura na esplanada cheia, é a última a chegar, às vezes, nem chega, olha em redor: tudo igual, repetido e igual. Resta-lhe o grande amor e respeito pelos amigos - não consegue esquecer o inverno longo, a espera interminável, as dores, a expectativa do que há de vir. Assusta-a  o início do mês que mais aprecia, o mês que sempre foi seu, as manhãs mais cinzentas, o sol mais pálido, aquela luz - o brilho mais tímido daquele mês sempre celebrado pelas suas  escolhas. Pensa no regresso, as rotinas que se inauguram - nunca são iguais - os exames do filho, o afastamento dos pais e a partida do homem, que no lugar de um gesto gentil,  lhe deixara um enorme vazio. Ela já sabia, adivinhara o fim, nas primeiras palavras, no primeiro toque, no primeiro entusiasmo. Acreditara na pele a entender-se com a sua pele, a novidade do desejo que vira nascer num corpo ainda tão cheio de alegrias, histórias e promessas. Encantara-se com o tempo que parecia que a tinha esquecido, o corpo de menina que despertara na roupa mais justa, no esquecimento da traição, na doença a partir, sem rasto. Deixara-se ir. Ela tão cética, tão segura, tão guerreira, lutadora, a melhor aluna, a amiga compreensiva, a menina das roupas arrumadas e de bom gosto. Deixara-se ir. Ele, mais tarde, quando ela lhe dissera que as suas noites nas férias eram conversas a fechar esplanadas, não acreditou, pensou no ritmo frenético que os tinha empurrado para a mesma cama, na primeira vez que se tocaram, ao de leve, no rodar da cadeira da discoteca onde tinham dançado a noite toda. Ela não sentiu a necessidade de lhe explicar nada, mas explicou. Num momento, naquele momento, nas dúvidas, na boçalidade da sua observação percebeu o mundo diferente em que viviam, a indiferença dele, a falta de mundo (perdoou-lhe e entendeu), não se tratava de falta de paixão, que nunca pensei em paixões, não estava nos meus planos uma alteração no meu quotidiano, uma quebra no meu dia organizado, um pouco frívolo e vulgar, mas disciplinado, conquistado com os meus dois pulsos. Sorria, a sua ingenuidade, a banalidade dos seus sonhos, da sua vida. Nas conversas, nenhuma das suas fraquezas ela lhes contaria. Temia o mês de setembro, este ano, partiria para a cidade mais cedo. Sabia que o verão lhe tinha sido leve e que a sua atitude de homem comum, o copo de gin tónico, a vitória do Benfica, uma noite como DJ lhe tinham bastado. Teriam? Como seria quando se encontrassem? Se encontrassem? Outra vez? Improvável! Talvez não. Num mês acontece uma vida, não tenho tempo, nem espaço para mais inseguranças. Os miúdos estão em primeiro lugar, vou voltar à escola, preciso de separar o lixo (metafórico, não é?), um livro para organizar, sonhos para alinhar. Não, tenho uma vida para viver - um projeto de vida para ordenar por ordem alfabética. Estou proibida de beber gin, por isso, não serei boa companhia. O que resta então? Não sei, talvez nada. Hoje, agora, nada. Prezo esta liberdade de mulher sem macho. Esta liberdade de poder escolher entre um bom livro e uma noite a dançar, sou a mulherzinha “chata”, gira, às vezes, mas tão vulgar, que no meu lugar do balcão, onde costumo estar, se eu lá não estiver, estará uma outra. Mais gira. Mais jovem. Menos complicada e que mora. Logo ali, ao virar da esquina. Talvez menos vulgar no seu top Zara e sandálias Seaside. Cabeça mais simples, menos, que não telefonará a desoras e que da vida terá as expectativas normais das mulheres normais,  apenas, uma vida normal. Como é costume, como as amigas. As primas. Eu sou uma mulher banal. Igual a todas as mulheres banais da minha geração. É claro, que nada disto é objeto de conversa na esplanada. Por pudor. Por amor. Por não ter interesse nenhum. Iremos ver a chuva de meteoritos, rir dos disparates que fazíamos, tentarei ficar mais alegre e esquecer que entre o inverno que passou e o que há de vir houve um verão ventoso. Nada de especial. Tudo igual. Banal. Como eu – uma mulher banal.

Daqui a pouco, a esplanada estará cheia de  amigos, fará um esforço para ser mais alegre, mais tolerante….Como sempre foi.

(Eu disse-te, talvez, tenha sido a primeira coisa que de mim fiz questão de dizer, que não tinha graça nenhuma. E é só. Talvez. Quanto baste.)
O telefone não para de tocar, sim, iremos todos para a esplanada, depois do jantar. Ah! Hoje é a minha vez de pagar os cafés? ‘Tá-se bem, lá estarei. Sim, correu bem, trabalhei a tarde toda. Até logo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

E, no entanto, penso em ti.





E, no entanto, penso em ti.

Venho da praia, estou cansado, trago o sol vivo na pele, o desejo serenou. Tiro o sal num duche muito demorado, gosto da água a desfazer o gel de banho, rolos de espuma a percorrer-me o corpo. Aos poucos, o bronzeado aparece. O sol não me escalda a pele. Seco-me bem com o turco grosso. Cheira a lavado. Não me esqueço da loção après soleil. O desodorizante. Deixarei a barba para amanhã. Um dia de praia e umas amigas. Soltámos gargalhadas, passeámos pelo areal, uma amiga de cada lado, os meus olhos desviavam-se para os biquínis coloridos. Sou um homem temporariamente só, hoje, à beira-mar, não estive só. Fiz o que quis. Engulo um prato cheio de  um caldo de galinha, enrolo uma lâmina de queijo numa fatia de pão e deito-me. Ainda passo pelo espelho e gosto do que vejo. Gosto sempre. A cor da pele contrasta com o azul dos olhos. Um homem elegante, enfim, alguns vestígios do gin tónico, mas a pose um ângulo recto perfeito. Ajeito a almofada, estico as pernas e o lençol. Talvez a noite arrefeça. Acendo um cigarro, experimento um zapping, deixo-me levar pela música e as imagens de um filme antigo. Inclino a cabeça, jogo os olhos pela sombras do quarto arrumado, páro na janela, a persiana fechada, o vidro a deixar entrar o ar, as espirais do fumo dos meus cigarros a saírem. Sem destino. Baixo os olhos, e apesar da penumbra, consigo distinguir a enorme mancha de humidade. Muito escura. Muito espessa. Feia. É apenas uma mancha de humidade. Uma mancha negra num quarto de um prédio de apartamentos, vulgar, inócuo, no subúrbio. No subúrbio cinzento que cresceu, sem beleza, junto ao emaranhado de estradas. Longe da cidade. De repente, esqueço a praia, a cor dos biquínis, a cor da minha pele bronzeada. E vejo a minha vida parada, muito quieta, muito só, escorreita, naquela horrível mancha. Uma vida cinzenta num bairro de subúrbio. Estou desempregado, sim,  sei que foi uma opção, em breve voltarei a fazer o que sempre gostei de fazer. Em breve. Olho para trás, nunca o faço, evito o passado, mas a mancha empurrou-me para a realidade. A realidade?! Uma vida. Um emprego. Uma mulher, de vez em quando, nesta cama. Eu, de vez em quando, noutra cama qualquer. Um filho que mal conheço. O buraco no peito desde que a minha mãe partiu. A última, ou talvez tenha sido a penúltima mulher, que se deitou nesta cama disse-me que os homens só crescem, só se tornam adultos, depois de as  mães morrerem. Não achei graça nenhuma. Não ri. Continuo como sempre fui. Único. Senhor da minha vontade. Agora. Mais livre. Não gosto de prestar contas a ninguém e a minha mãe faz-me falta.Todos os dias. Penso nela. Sou o centro da minha própria saudade. E ela faz parte desse mundo. És um bom menino, ouvi-a dizer enternecida. Era um só. Sim, sou um bom homem. Acho que sou. O meu umbigo. Um homem adulto, temporariamente só, com síndrome de filho único, disseram-me. Nem sei o que isso significa. Não me interessa. O amor incondicional das mães tornam-nos egoístas? O sol e a lua no mesmo peito? As ideias feitas, prontas e inalteráveis. Intolerante. Ávido. Curioso. Palavras que conheço. De cor. Par coeur. Em francês soa melhor. Vaidoso. Um homem Incapaz da entrega total? Incapaz de amar? De se apaixonar? Mãe, tenho saudades tuas, serei, por isso, um homem adulto? Serei, agora, um homem adulto? Terei crescido? Já não caibo na moldura, mãe. Li, algures, num poema. A mancha de humidade é o quarto sombrio e abafado. Um quarto. Uma mancha escura. Irregular. Talvez a lixívia consiga apagar a mancha. Apagar esta vida mais cinzenta. Se esfregar com muita força, o branco da parede aparece e a vida voltará. Igual. Repetida em vinte e oito anos de noites loukas (com K, não há outra forma de escrever louka), balões de gin, água tónica, morangos. Muitos cigarros. Muitos amigos. Jantares, festas. Só amizade. De todas as cores. Mulheres diferentes em intervalos de tempo, mais ou menos, longos, a música no ar, o Benfica campeão, a pose de cavalheiro, a atitude de um gentleman, o espelho a dizer-lhe  que sim. Livre, sem compromissos, sem tristezas, sem mágoas. Pois é, a  solução é lavar a maldita mancha com muita lixívia. Amanhã, trato disso. Será a primeira coisa a fazer. Vou acender outro cigarro. Já perdi meia hora de filme. Comprarei um garrafão de lixívia, uma  escova rija, não me posso esquecer das luvas. Depois, passarei uma boa camada de creme pelas mãos. 

E, no entanto, penso em ti.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O silêncio e o Tejo no último dia de julho.





Silêncio e o rio Tejo no último dia de julho.

Muito nublado, pintado de cinzento o rio, o céu carregado deixa que as curvas dos montes se recortem e desenhem curvas sensuais, ora mostrando, ora escondendo, as nuvens mais grossas. Advinha-se, ao longe, uma cidade, na linha do horizonte com corpo de mulher. Corre, o rio, pesado e dançando com pequenas ondas, deixando-se -se levar, cortam-lhe o ritmo os cacilheiros, os pequenos veleiros, os barcos mais velozes. Renova-se. Em cada curva. Investe nos pilares da ponte. Estremece com as hélices de um helicóptero ruidoso. Da água escura, apenas, um marulhar tímido. A cor acinzenta-se, cada vez mais espessa, mais turva, a neblina fica opaca, apaga o transparente. Está húmido o ar, quase frio, neste julho que se despede. Arrefece. Não apetece a cerveja, nem o gelo a derreter num copo mais inspirado. Nem  uma gota de sol , durante todo o dia. Os semblantes ficam mais carregados, impacienta-se quem na praia procura forças, as respostas, a necessidade de justificar o tempo de repouso que se guardou para trinta dias de pés dentro de água e a esfregar-se na areia. O tempo está a mudar, este verão está cheio de medo, teme a crise, cospe a guerra e entristece-se, perdeu a esperança. Não me incomodam os dias sem sol. Junto ao rio a pele desejaria o abraço de um tecido mais quente. De um lado para o outro, há quem se desafie numa corrida, numas pedaladas de uma bicicleta mais sofisticada, num passo mais ritmado, aceleram-se os corpos. A neblina é cortada pela cor dos maillots, dos ténis garridos. O cinzento cortado com bolas de cor a compor o caminho a par do rio, de alcatrão, feio e escuro. Um caminho muito estreito, deitado ao longo do rio. Não se ouvem vozes de crianças. As vozes, surdas, vão e vêm, apetece uma gargalhada, a música deixa-se ouvir através das colunas alinhadas Componho a écharpe, Não tem frio? Perguntam-me, não, não tenho frio. A luz a enfraquecer entristece-me, há quem jante, penso na cidade de Cesário Verde, penso noutras cidades. Fico a pensar. A pensar. A olhar para o rio. Se olhar para a esquerda, consigo distinguir o encarniçado da ponte, nas minhas costas, no outro lado da linha, prepara-se a cidade – vem aí mais uma noite. Uma noite de inverno, oiço alguém dizer. Imagino-me, nesta mesa num dia de inverno escuro ou  um domingo de inverno, com sol. Se fosse janeiro não estaria, sentada, tranquila, a olhar para o Tejo. Numa esplanada. Não veria aquele veleiro cheio de histórias e mar para contar. Continuo sem frio. Cai um pingo no meu caderno cor de rosa. O pingo não estragou as palavras que a parker desenhou. Há cães que ladram a uma gaivota e um homem limpa o suor a um lenço estampado. À medida que o tempo avança, o dia vai caindo e  a noite não demora, não tardará. O caminho estreito, agora, começa a parecer uma avenida de vestidos decotados tapados com casaquinhos  de gente mais previdente. Quando saí de casa não pensei na humidade. Queria ouvir música, ver o Tejo – estaremos separados uns dias. A avenida em que o caminho se transformou deixa ouvir os aviões, o teclado do inevitável Facebook, os telemóveis mais insistentes e as conversas mais amargas sobre dinheiros desaparecidos. Começam a chegar os casais, temos reserva para jantar. Talvez fumasse um cigarro. O dono da esplanada pergunta-me se tenho fome, Quer que lhe mostre a ementa? Deixo-me ficar, não tenho fome, ocuparei a mesa mais uns minutos. Sairei, quando a cidade de seis andares ultrapassar os pilares da ponte. No andar de cima, as pessoas parecem cedilhas à solta. Varreram a cidade durante o dia. E, de repente, a música começa a ter o som de alguém que a toca. Ficarei mais um pouco, esqueço a cidade de seis andares. A minha bebida está no fim e a avenida ficou mais larga, mudou de vida e de lugar. Reconcilio-me com a humidade e  continuo sentada. O caderno  cor de rosa, a parker e eu estamos a gostar. Um idiota saído  de um filme série B bate palmas, não me mexo, não quero as palavras espalhadas pelo chão. O silêncio desapareceu, a avenida e o Tejo ficaram. Estou em boa companhia. Os músicos acertam-se, os primeiros acordes do saxofone acompanham as braçadas dos remadores de camisolas às cores. Entra o contrabaixo, dois miúdos a rir e a correr e um barco a motor a riscar o Tejo e o Silêncio. O céu escureceu  um pouco mais. Não estou sozinha, tenho a música sentada na minha mesa da esplanada, em frente ao Tejo. Identifico um ator de telenovela e um tema de Miles Davis, não me recordo dos nomes. Esqueço o frio e a humidade. As nuvens não se percebem no céu mais escuro. Um casal agasalhado pede marisco. Nunca me ocorrera misturar Miles Davis com marisco. Gosto de Miles Davis de marisco nem tanto. Na outra margem já se veem pontos de luz e, por breves momentos, o rio ficou sem um único traço a raspar-lhe as ondas, distingo o diálogo, contrabaixo e saxofone, os gritos e uma gaivota. Já não são horas de dia. Terei de partir. Pedir a conta, fingir que tenho frio e levar a música que ficará no ar.

Está na hora. O meu relógio tem as horas sempre à hora certa.

Vou para casa. Andarei mais um pouco à beira rio. Não, ainda não. Um pombo preto poisa no banco colorido, volta para trás. Não se mexe. Eu já fui e, no entanto, continuo a olhar para o Tejo. Regressarei um dia destes. Prometo.

 

(Algures, no Tejo, no dia 31 de julho de 2014, às 20h50m)