quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Vamos falar de Amor





Vamos falar de Amor.

O jantar está ao lume, cozo os legumes que serão uma sopa que tu não provarás. Arrumei os congelados como tu me ensinaste: a carne e o peixe em gavetas separadas, os legumes por ordem de validade e cores, as caixinhas e as respetivas tampas com os restos que trouxemos do almoço de domingo em casa da tua mãe, os cubos de gelo, o pão fatiado. Tudo como tu gostas. Tanto que tenho aprendido contigo, meu amor! O guisado está quase pronto, temperei-o com um cubinho Knorr. Não notarás o gosto e dirás cozinhas quase tão bem como a minha mãe, o tempero está parecido, a tua mão para o sal melhora de dia para dia, devíamos convidá-la mais vezes, sempre aprenderias alguma coisa. Começo a sonhar, férias à beira-mar, sexo numa cabana, o fato de saia e casaco igual ao da Dª Teresinha do andar de cima, o emprego de secretária, os exames do décimo segundo ano que não fiz, porque, entretanto, nasceu o Vasquinho. Provo  a magia do cubinho dourado com a colher de pau a escorrer o molho grosso na palma da minha mão, continuo a sonhar, mexo devagar para que o jantar fique apurado cheira bem, volto para os sonhos,  o óbvio, os miúdos a aprender línguas, o funeral da tua mãe, abafo uma gargalhada e sinto-me corar, a sair pela janela da cozinha, nas avenidas de uma grande cidade, ou numa sala de cinema, a ver uma história com aquela atriz de cabelo loiro, que vimos num filme fingir um orgasmo e tu chamaste-lhe  porca. Nunca mais me deixaste ir ao cinema, nem ao clube de video e contas essa história, quando bebes um copinho a mais. Saio da avenida, abandono o cinema, volto para o fogão, mexo, mais uma vez, o molho e jogo, para dentro do tacho, as batatas partidas aos cubos, todos do mesmo tamanho, como tu me ensinaste, meu amor. Temos de ser impecáveis, até, a cortar as batatas. Tens razão. Vou agora para mais longe, arrumo os peúgos, os teus e os dos miúdos, imagino-te a cantar as canções dos Bee Gees ao ouvido, recordo a tua mão a tirar-me as cuecas no alpendre da vizinha Rosa, a vergonha na rua, a barriga a crescer e, de repente, sai-me uma gargalhada, vejo o caos nas caixas do supermercado, o responsável de olhar louco sem saber o que fazer – um supermercado às escuras, os cartões multibanco encravados, as pessoas a correrem como loucas para as prateleiras dos chocolates, continuo a rir, gargalhadas soltas, à toa, pela cozinha.  Gritas de dentro do sofá florido, forrado a plástico: OH! Mulher, endoideceste? Estás maluca, agora ris sozinha? És parva, ou quê? Chama os putos para a mesa, tenho fome. Onde está a Verinha? Vai chamá-la, anda, tenho fome, porra! Sim, meu amor, está quase tudo pronto. A Verinha hoje chega mais tarde, está no turno da noite. Fico com o coração mais pequeno que o bocadinho de tomate que dança ao som da colher de pau, a minha Verinha, tinha tanta felicidade para lhe ensinar…Tenho de me despachar, pôr a mesa, passar as camisas do meu amor, nem me sento , hoje atrasei-me com os sonhos e as parvoíces do costume que me passam pela cabeça. OH! Vasquinho, vem para a mesa que o jantar está pronto, acabas o jogo depois do jantar. A casa está limpa, hoje é terça-feira, aspirei e lavei a roupa e os vidros, no domingo. Amanhã, entro no turno da tarde, vou deixar-te ir para a cama primeiro que eu, adormecerás de seguida e não te apetecerá foder-me - dois dias seguidos costumam deixar-te exausto. Poderei acender o candeeiro da mesa de cabeceira, tu não acordarás, meu amor e eu posso continuar a ler o livro que trouxe do supermercado, tenho de o colocar no mesmo sítio antes que a Josefa arrume as promoções da semana, insistiram que eu trouxesse as sombras do não sei o quê, eu prefiro a prateleira dos autores portugueses, ninguém os lê, ela não perceberá que trouxe debaixo da bata o livro da Dª Lídia Jorge, gosto dela, é algarvia, de Loulé, acho eu, como o meu avô da figueira grande. Já se sentaram à mesa, cheira bem o comer, esta receita é da televisão? Não respondo, faço de conto que não ouvi. Volto para a janela, agora não vou voar para lado nenhum, posso deixar cair um peúgo dos teus preferidos, meu amor, umas cuecas do miúdo, uma mola, sei lá, qualquer coisa… Os vizinhos da frente também estão a jantar e têm a televisão da cozinha ligada no mesmo canal que nós, estão todos a ver o mesmo e a mim só me apetece saltar, fugir pela janela. Não, meu amor, não farei isso, nem por ti, nem pelos nossos meninos, estarei a teu lado para o que vida nos quiser dar, meu amor.

Amo-te, Jorge e tanto, tanto. Para onde queres que eu vá, se tu nunca sabes onde deixas as chaves do carro? Jorge, meu amor.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

( Mas isto sou eu a escrever num dia como outro qualquer.)




(Mas isto sou eu a escrever num dia como outro qualquer.)

Estavas a pensar em algo mais sério?

Trato-te por tu, sem manias, nem cumplicidade de almofada. Não te falarei de amor, nem direi que te amo, porque sobre o amor não sei falar. Acreditei que existia, pensei que era uma construção que se retocava todos os dias, uma comunhão de frases acabadas ao mesmo tempo, uma casa cheia de flores, uma gentileza, um piscar de olhos. Percebo, agora, que o amor é uma invenção literária, ou uma bênção. Falo do amor de um casal, de casa, de filhos e mesa com toalha  branca, a sopa quente e a horas. De uma vida com a mesma alegria no olhar. Como gosto de ler e de literatura não fui abençoada com esse amor. Seriam, talvez, incompatíveis. Não sei, não tenho respostas e a paciência para as perguntas vai-me faltando. Vejo o amor dos meus pais. Assisti ao amor dos meus avós, vivo-o no cinema, nos romances e quanto ao Amor - com maiúscula - assunto encerrado. Não falo de poetas – falei de Literatura que é o mesmo. Percebo o amor incondicional pelos filhos. Conheço o cheiro e o gosto. E não questiono o sentimento que me faz ter amigos há cinquenta, trinta, vinte, dez anos. Amigos que atravessam o Oceano para me abraçar, dormem ao meu lado na mesma cama de hospital, riem, choram de mão dada comigo, ou trocam um par de horas de conforto por um telefonema. Gosto das pessoas que são, não imagino a minha vida sem elas, apesar de já ter algumas na memória . No que sou, oiço e cheiro. Sou o que cada uma delas me deixou tirar-lhes.

  Está riscado, por aí,  nas paredes, desenhado nas nuvens, P. está apaixonado por C. ; L . ama T. Ou a frase mais desesperada ( é de desespero que se trata, certo?) não sei viver sem ti. Deduzo, portanto, que esta ”coisa” do Amor, a tal invenção da Literatura, a bênção, deve ser uma obsessão, um sinal dos tempos, uma necessidade dos homens e das mulheres. Uma demanda. Uma parede contra a solidão de cada um de nós. Não sei. A minha solidão está bem, muito obrigada, e faz par com a minha liberdade. Se dançarem a noite toda, entre uma piscadela de olho e uma taça de vinho, então, estão em paz.

Estavas a pensar em algo mais sério?

 Não me digas que acreditas em tudo o que está escrito na última garrafa de vinho? No fundo de alguns dos meus copos pode ler-se Ikea.

Nos teus lê-se o quê?

 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

"Estava bonita a festa, pá."

http://youtu.be/rWu0N0qPeME


"Estava bonita a festa, pá"



Vou para a casa, a noite perdeu a alegria, os telefonemas, os insultos, a ameaça… tudo perdeu o brilho e a miúda gira... a miúda gira guardou as sabrinas, esticou as meias pretas e subiu para o quarto para guardar, sem mácula, nem  nódoas, o cheiro de uma noite que num estalar de dedos perdera a magia. O vestido era bonito. Ela também: seria perfeito se nos amássemos. Saio com a cara enfiada no bolso das calças, sem vinco, depois do segundo maço de cigarros. Acabaram-se os cigarros. Entro no carro, andei um bocado até o encontrar. O meu amigo e eu. Estávamos cansados. Fiquei triste – eu não sei ficar triste, pelos outros, mas é este egoísmo que me anima -  talvez, tivesse  ficado, por ela, pela miúda gira. Não valorizei o seu desgosto, não valia a pena – não podia fazer nada. Quando pus a chave na ignição o telefone ainda gritava insultos. A insanidade tomava conta de mim. E eu permitia. Por egoísmo. Por nojo. Por impotência. Por náusea. Lido mal com  o ranho e a merda. Lembrámo-nos, eu e o meu amigo, das pernas longas e dos calções de xadrez que nos caíra no copo de gin. Rimo-nos, era uma miúda bonita, muito jovem, toda curvas e rimmel.”Podia ser nossa filha.”A gargalhada saiu sem que o percebêssemos. Na bomba de gasolina, compramos cigarros. Fumo com avidez. Fumo sempre com avidez. O primeiro cigarro da manhã. “A miúda era muito gira”, insiste o meu amigo, a imagem das longas pernas aparece num rolo de fumo que deito fora, a imagem está desfocada, não me apetece pensar em pernas, calções outras ‘preciosidades’, mas vejo com  muita clareza o vestido preto, de corte perfeito, as mãos bem desenhadas, a gargalhada, o passo de dança, a mesa cheia de flores, a comida saborosa, os olhares de juízo dos amigos, o nervosismo inicial. “Se não  gostarmos das pessoas....não nos interessarem, oferecemos as flores e voltamos para a nossa vida de fim de semana, não achas?” Ficara combinado. Mas gostámos. Ficámos, Tudo perfeito, o vinho, os vestidos, o perfume da curva do pescoço, a facilidade com que as palavras rolaram. Muito agradável, elegante, “gente de bem, miúdos educados”, como não fico triste pelo outros, não pensei na força, na alegria da figura pequenina e frágil a controlar olhares, pratos sujos. E  o beijo que lhe roubei sem que o filho percebesse? Gosto desses beijos roubados assim. Costumo usar uma expressão para momentos assim, não ouso repeti-la, porque não pertence a esta casa.  Não  pertence a uma casa como aquela.
 Não posso negar a distância.

Sigo pela estrada, amanheceu e estou a chegar. O telemóvel está em silêncio. Nâo tem bateria.  Cumprirei a minha obrigação, as bolachas, o leite com chocolate, os cigarros. Quando me despeço do meu amigo percebo que amizade estará sempre ali, a meu lado. A vida? Não sei! Por enquanto, evito o cheiro a merda, o ranho, o lixo que é preciso arrastar para se entrar na casa do velho. Os insultos páram, no momento, em que rodo a chave na fechadura e mostro o  saco do supermercado. Sossegam os dois. Eu estou cansado. Com o sol, veio o cansaço da obrigação, a insatisfação. A noite, a vida poderiam ser muito melhores. O melhor, a medida do melhor está dentro de cada um de nós. Neste momento o meu melhor está no que consigo fazer com ou sem cigarros. Quando entro em casa (em casa?) penso que a mancha de humidade aumentou, a mancha escura que limita os meus movimentos, me quebra  a pose e  diz que as manchas negras das nossas paredes são a metáfora daquilo em que a nossas vidas se transformaram. A imagem não é minha. Por que é que  permitimos? A minha vida tem  o tamanho da mancha de humidade da parede. Uma mancha suja e escura que alastra nos dias de chuva.De muita chuva.  A vida deve ser mais do que este borrão cinzento, indefinido, escuro, mais claro num ou noutro ponto. A vida é mais do que tudo isto. Aprendi-o contigo ‘minha santa mãe’, mas, de momento, minha mãe, eu não a sei dizer de outro modo. Não a sei viver de outro modo. Lembraste de quando íamos, os dois, ao parque infantil e tu me dizias, que eu era um bom menino, um dia, seria um homem de bem  e que para tudo há um limite, menos para as cores do nosso arco-íris? Apanhei frio. Estou muito constipado.
Mãe,  não sei  viver sem este frémito de arco-íris, diz-me, minha mãe, que farei a seguir?
A festa estava bonita e todos gostaram de mim. E, a seguir, minha mãe, que farei? Amanhã? Depois de amanhã? No dia seguinte?

 
(Deixo-te um abraço e uma lista de perguntas - não precisas de responder a todas.Chegou o momento de me tornar um homem de verdade, daqueles que tu me disseste que sabem tomar conta de si própios - mesmo que isso nunca venha a contecer: não te preoucupes tenho  amor de  sobra.)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Esta noite





Esta noite.

 Conhecem-se de noite. Tocam-se, ainda, não alvorecia. Sabem que o dia virá. Silêncio no tempo a passar entre um rasto  de sono e de sonho. Sem palavras. Um só no outro corpo. As solidões esquecem-se e aquecem. Sem pausas. Com sede. A intimidade a crescer. Por dentro. Na rua ficou o mundo. Miséria, pobreza, infelicidade, doença. As estrelas apagam-se. Quase. Num minuto que passa muito depressa. Não tardarão as vozes, os gritos, o insulto. Um só no outro corpo, enquanto as estrelas brilharem. Ficarão assim com o cheiro, com a pele, com o beijo. O último. Percebem que a sombra entrou e desenhou mais um dia. À hora certa. À hora que o relógio nunca atrasa. Como a água que corre, quando se abre uma torneira. Irreversível. Impiedosa. Pontual. Partir. Ficar. Não. Porque esta noite só a felicidade se pôde adiar.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os meus olhos são muito chorões.





Os meus olhos são muito chorões.

Há sempre uns avós que vão com os netos às consultas, uns senhores que ainda têm uns trocos para a carcacinha com manteiga e o macinho de cigarros. Quando não estão nos consultórios com os netos, ou à porta da escola, estão a jogar damas no jardim do bairro onde moram, os que sobraram - os bairros, os jardins, os velhos, as damas e as reformas, claro! No consultório onde passei a tarde a lacrimejar estavam dois pares de avós com dois pares de netos. Os avós compostos no seu fato completo de ir ao senhor doutor e com os peúgos de lã, estreados no dia de ano novo, não tiravam os olhos da televisão suspensa que vendia dinheiro e muito sucesso. Os netos, ainda de farda e a chupar com jactância, (gosto desta palavra - é mais forte que veemência, não é?) os pacotes de leite com chocolate, equilibravam a palhinha com as PSPs ruidosas e pronunciavam uns gorjeios que tive dificuldade em traduzir. Num banco mais comprido, de napa verde e gasta, um pai-engenheiro-de-fato-completo conversava com a filha,  cada um tinha  o seu tablet, e, pelo, ritmo a que os dedos deslizavam , deveriam estar a discutir a prisão do Sócrates, o comprimento da saia da jovem ou, apenas, a  decidir a hora do regresso do Urban. A miúda era cheinha de hambugers e pastilhas elásticas,compreensível, portanto, o desespero de ambos no acerto dos horários. Não, não estariam a falar de Sócrates. Já não interessa a ninguém e a Edite Estrela já passou de moda. Num momento o pai fixa os olhos na televisão e com muita atenção segue o empreendorismo do jovem de sucesso, que investiu todas as suas economias numa fábrica de realizar sonhos. Entre uma pergunta e outra a menina de vestido muito justo e o seu companheiro apresentador debitavam uns números de telefone, a medo, o avô com os tais  peúgos de lã estreados no dia de ano novo e o pai-engenheiro-de-fato-completo marcaram o número nos seus aparelhos e esconderam-nos, à pressa, no bolso das calças, abanavam-se com a cara da Bárbara Guimarães e da Cristina Ferreira. Para os miúdos os pacotes de leite chupados até à última gota já eram, espalhados no chão da sala. Importante, apenas,  a PSP e um ou outro macaco que tiravam, com algum esforço, dos narizes  decorados a pontos negros e borbulhas do tamanho de pipocas. A miúda exibia umas soberbas unhas de gel e eu juraria que os ténis de salto alto já estariam guardados em qualquer caixa à espera de ser vintage. Doíam-me as costas, o meu olho chorava todas as dores do universo, a cor do vestido, dois números abaixo, da menina que insistia em ser fadista agora, que o fado era a canção mais importante da cultura do mundo inteiro e entre uma lágrima e outra percebi o sucesso da fábrica de sonhos: todos nós temos um sonho, sei lá conhecer o Ronaldo, dormir uma noite no Tivoli, ser perseguido por um bando de paparazzi, saltar de para-quedas, ir de férias para Vilamoura, sei lá, de momento, não me lembro, assim, de mais nenhum, é verdade, já me esquecia de um jovem que quis dar de comer aos elefantes, no Jardim Zoológico e, nós vamos conseguindo, temos tido muito sucesso. Tinha, nesse preciso momento, os dois olhos a lacrimejar. Mal conseguia ver. A luz incomodava-me. Ardiam-me por dentro e por fora. Então os sonhos dos portugueses resumiam-se a apertar a mão ao Ronaldo, alimentar elefantes, dormir numa suite do Tivoli?! Então e construir uma escola sem vidros partidos, um hospital digno, a cura de uma doença, a Paz no Mundo? (Porra, isso, até aquelas mocinhas que querem ser misses desejam!!!! ) Desesperava. Os kwatts do aquecedor no máximo fugiam pela janela da sala de espera que estava aberta. E, isso incomodava-me. O dia escurecia e eu só pensava numa chávena de chá. Não, não ousava abrir a boca, não fosse o tal senhor satisfazer-me o meu mais secreto desejo. UI! Quero ir para casa e continuar a pintar os olhos, ver o cair da noite no rio…. a enfermeira percebeu o meu sofrimento:Tenha paciência é uma urgência, vai ter de esperar mais um  bocadinho. Eu esperava. Era uma urgência, tinha de esperar. Olhava para a televisão, já tinha ido à casa de banho e alinhava estes disparates no meu caderninho cor-de-rosa. Perdi de vista o pai-engenheiro com a filha feia e os avós e os netos já tinham ido fazer os trabalhos de casa. Restava eu, a árvore de natal que piscava umas irritantes luzes verdes, um monte de revistas velhas e o programa da tarde que continuava a dar dinheiro e vendia cebolas para emagrecer. Anoiteceu. As minhas costas eram uma massa de lágrimas que eu não conseguia controlar. Não conseguia ler. Afastei-me um pouco da televisão, procurei um ângulo menos doloroso e aprendi um novo  conceito de cozinha de fusão: sushi e comida alentejana. Por exemplo, farinheira com sashimi suzuki, haru-maki com grelos salteados e uma tempura ika com yasai cozidos com arroz especial japonês. A dificuldade está na cozedura e na qualidade dos ingredientes, os cogumelos, por exemplo, não prestam, os cogumelos portugueses não prestam. Repetia o senhor da cozinha de fusão japonesa. Fiquei esclarecida–sou uma incompetente cozinheira de fusão. E, no momento em que, Povo que Lavas no Rio se ouviu, na sala que, entretanto, ficou vazia, entrei no consultório do médico… Duas seringas, canais desentupidos, trinta e dois euros, uma tarde muito bem passada, dezanove euros de gotas, uma chávena de chá de hortelã, ao lado da farmácia, e nem uma única montra lambida. Nada. Cheguei a casa eram nove horas  da noite, os miúdos estavam a ler e já tinham jantado.

Eu fiquei, por aqui. A televisão muda e cega, a rádio sintonizada na  M80, não me perguntem porquê...

Já não consigo responder a perguntas difíceis.

Amanhã, já conseguirei pôr o eye-liner, o rimmel e tudo a que tiver direito.

 

Darei notícias.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ao telemóvel entre o Cais do Sodré e o Marquês de Pombal






Ao telemóvel entre o Cais do Sodré e o Marquês de Pombal.

O rapaz da tatuagem.

Os rapazes, quando são rapazes são todos iguais, bem, iguais, iguaizinhos, não serão, mas até ao momento em que mudam a primeira fralda, choram a primeira alegria da vitória de um filho, ou soluçam, estiolados, a morte da mãe, são sempre rapazes iguais, ainda que iguaizinhos, iguazinhos não possam ser, porque há uma “coisa”, descoberta há pouco tempo, chamada genética, com muitos cromossomas herdados do pai e da mãe, que os distingue na cor do cabelo, tamanho das mãos, lisura da pele, o tamanho do dito. Acrescente-se, além, da rua onde crescem, a escola onde aprendem a ler, a preferência ou a repulsa pelo Nestum, o uso da Mustela ou do sabão azul e branco. Os rapazes - louvemos algumas excepções – como diria a minha tia Rosinha que morreu solteira, mas que conheceu muito bem o género masculino, “os rapazes, quer dizer, os homens é tudo farinha do mesmo saco”. Quando era miúda e ouvia a voz sábia desta minha tia muito vaidosa, sempre na rua e de livro na mão, achava que a ciência acabava ali. Com esta minha tia aprendi quase tudo o que havia a aprender sobre o sexo masculino, em teoria. Como é óbvio. À medida que fui crescendo, não só fui constatando que ela era uma mulher sapientíssima sobre o género humano, em geral, e, sobre rapazes, em particular. Na época, devorava com ela tudo o que aparecia da Corin Tellado e do Max du Veuzit, o sonoro também ajudava e os admiradores que lhe elogiavam o baton da Thaber também devem ter sido grandes inspiradores. Falo de rapazes do “mesmo saco de farinha” e desta minha tia que não saía à rua sem pintar os lábios e pentear com mil cuidados o cabelo que usava  muito curto, porque, apesar de durante algum tempo, ter acreditado que “os homens mudaram” e que “as mulheres se emanciparam”, tenho de concordar que, apesar de se mudarem os tempos e as vontades (terão mudado? até pareço a minha avó a falar) mudou, sobretudo a variedade da cor dos batons e a possibilidade de os rapazes, os tais, “da farinha do mesmo saco”, poderem, se assim o entenderem, pintar os lábios, as unhas, as costas, as costelas, furar as orelhas, alargar o furo das orelhas, depilar o peito e outras zonas mais sensíveis, não porque a moda seja ditadora, mas porque a imagem que gostam de ver refletida no espelho, deve ser muito idêntica à da minha maravilhosa tia. Perfeita… À medida de cada um. Pois, claro - uma figura esbelta, cintura fina, pele agradável ao tacto, colorida sem o incómodo do pó de arroz que obrigava aplicações frequentes, o cabelo com um bom corte, a calça a condizer com a camisa, ou com a saia, o sapato engraxado, se for o caso, ou de tecido, de marca, muito caros e apetecíveis, à venda, em qualquer site online. Nesta comparação a minha tia está em desvantagem, porque morreu muito antes da La Redoute, do ebay e do Facebook. Dizem os entendidos que a estes rapazes que continuam a ser “farinha do mesmo saco” se dá a classificação de metrossexuais, o epíteto não deixa de ter a sua graça, mas ainda não consegui descodificá-lo, no entanto, consta que uma nova tendência dita agora o modelo lenhador de camisa aos quadrados e machado na mão, não sei que nome se lhes dá e, de momento, parece-me irrelevante. De volta ao espelho, que é sempre onde tudo começa, tive há dias a sorte de conhecer um jovem rapaz, no sentido bíblico do termo, passo a falta de originalidade e a heresia da expressão, da tal “farinha do mesmo saco” dos outros todos, que entremeando elogios à doçura da minha boca e à elegância do meu pescoço me fez lembrar a minha Tia Rosinha, sempre que num gesto mais ousado me exibia as cores da bela tatuagem-carregada-de-energia-positiva e se esforçava por aplicar, num frémito de desejo, ensinamentos, atrás de ensinamentos estudados  nesse Kamasutra do século XXI, chamado As Cinquenta Sombras de Grey. Não fiquei convencida – a tatuagem perdeu a cor no primeiro arroto, depois da cerveja da ressaca e resumir o encontro entre dois corpos a uma série de exercícios, quiçá, copiados de uma qualquer lição da Jane Fonda!? Não, me parece. No entanto, o que me faz pensar cada vez mais nesta minha tia de lábios cor de carmim é a falta de originalidade na sedução. Na composição da personagem. Nas primeiras palavras que se trocam, nas promessas de ver a lua cheia, ou na constante utilização do mais belo sorriso do balcão e os mais belos olhos que aqui estão… Minha querida Tia, ainda bem que lemos todos aqueles livros, mas deixa-me discordar: as raparigas também não pertencem a “sacos de farinha” assim tão diferentes. A vida está mal para todos!!! Um dia destes apresento-te umas quantas, está prometido! A este propósito e, porque eras uma senhora com muito mundo acrescentarias, como Vieira que tanto apreciavas, “tudo isto é matéria para muita doutrina”, terias razão. Só um pequeno pormenor me confunde - o gosto pelas tatuagens, o culto religioso, sim religioso, do corpo, estará ligada à leitura dos clássicos, ao bairro onde se mora, ou será apenas uma maneira de estar na vida?

Diferentes tons de cinzento, viagens a Las Vegas, muito sexo ensaiado no ginásio e um corpo que se exibe em todos os espelhos em que se tropeça serão as fórmulas para uma nova ideia de felicidade?

Então, Tia Rosinha, que me dizes? Tens alguma ideia sobre o assunto?

Eu estou sem cor….


(Para descanso e tranquilidade dos meus amigos defensores da moral e dos bons costumes este texto é só isso - mais um texto, uma brincadeira, ficção e, pronto!)

 

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os teus fins de semana são sempre iguais.


Os teus fins de semana são sempre iguais.
 


Os teus fins de semana são sempre iguais.

Dançaram a noite toda, foi tudo naquele lusco-fusco a cheirar a cigarros, hálitos de mentol, gin tónico, transpiração derramada e perfumes que fazem questão em exibir numa saia mais curta, num decote mais atrevido, ele apreciou a silhueta de menina, a leveza do gesto, o bom gosto, na saia preta e nos sapatos de plástico a imitar verniz, ela, mais frágil, quase acreditou no beijo de oiro, nas mãos dele que não largavam a sua cintura. É na fragilidade e na tristeza que as pessoas se encontram, dizia alguém, ela preferia acreditar, que as pessoas se encontram na alegria de uma gargalhada fácil. À noite, é tudo encenado, preparado e ensaiado ao espelho, durante horas. Tudo escusado. A semana constrói-se na dureza de um futuro que se desconhece, compro uns pneus novos para o carro, ou mudo as lentes dos óculos do puto, se calhar este Natal não iremos à terra, as crianças têm de compreender que uma consola chega para os dois, a prestação da arca congeladora está atrasada, não visito o filho mais velho, porque isso já não fará grande diferença, agora na rua da frente abriu um pronto a comer, não é muito barato, mas evita-se o parque de estacionamento, as tentações do champô da juventude e o creme que tira os papos a volta dos olhos, este Natal não se incomodará com a Popota, eram coisas da Teresa e ela, agora, desde que vive com a mãe está mais preocupada com os sábados de Karaoke, coitada também com a vida que eu lhe dei! Ela está bem, o apartamento dos pais é em Massamá, já está pago, ela é filha única, tem um emprego estável. Educa bem os miúdos. Enfim, talvez fosse… Passo a semana a lavar camisas e a mandá-las passar a ferro, por isso, o fim de semana, é tudo que eu espero que seja. Casei muito novo, vieram logo os filhos, os horários e um raio de um trabalho em computadores que já não dá futuro a ninguém. Há vinte anos conhecera a Teresa enquanto dançavam o Thriller, eram tempos de muita loucura, o Tiago já tinha nascido e a Teresa pareceu-lhe perceber as frases que ele mal pronunciava. Foi tudo num ápice. Foi assim. Agora, ia para a noite à sexta, ao sábado e ao domingo era no centro comercial que gastava a nota que trocara na noite anterior, cinema e Macdonald com os putos. Já não eram muito putos, mas alguma coisa, algum exemplo teria de lhes deixar, no início eram os bonecos do Happy Meal. Era exemplo suficiente. Mais que suficiente! No último domingo o mais velho comunicou-lhe que teria de alternar os domingos com a namorada, a ele pareceu-lhe bem, se ela não aparecesse seria menos  UCBO a menos, as miúdas também comem que se fartam, e as copas dos soutiens…. lembrou-se da miúda esguia da noite anterior, era gira , copa mais pequena, dançava bem, já a vira várias vezes, mas não... aquilo era muita dor de cabeça, se ela quisesse dariam uma queca, se ela quisesse… ele teria de encolher a barriga, não tinha unhas para aquela guitarra, mas reparou no puto mais novo à  volta dela, talvez tivessem muito que dizer um ao outro, depois viu-os sair juntos, não lhes pareceu que acabassem na cama, dizem que só as mulheres têm intuição, os homens também têm. OH! Se têm! Clareava, quando saíram, ele mantinha a mão à volta da cintura. Ela gostava, gostou do sabor e do cheiro dele. Despediram-se. Com um bom beijo. Ela gostou do beijo e do que ele disse um bom beijo  e de  que ele não tivesse insistido no pequeno-almoço.

Nem no Tejo.

Entre eles havia dezoito anos de diferença, dezoito anos não é nada, o tempo é uma arbitrariedade.Não existe.Tinham passado dezoito anos que nunca existiram, dezoito anos de música, blusões e pulseiras de cabedal, marcas de iogurte, artes marciais era tudo diferente. E obrigatório. E o Foucault? O que é que tem o Foucalt?  És mais feliz por teres lido o Foucalt?

Foi para casa a sentir-se cansada e, no entanto, mais leve. Menos cabeça. Mais feliz? Isso quereria dizer exatamente o quê: mais feliz!

É-se mais feliz quando se leu Foucault?