segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Lou Reed - Perfect Day





(Lou Reed, Transformer, a ouvir desde 1976)

A partida para a guerra em África já não nos amedrontava, as turmas eram mistas, as salas de cinema passavam filmes novos, as ruas coloriam-se. Chegava gente de um mundo diferente do nosso. Gente feliz. Gente infeliz. E começávamos a gostar de poesia. O coração partia-se ao som da música que ouvíamos no jardim, no carro roubado ao pai, na estrada a caminho da praia e nas noites mais longas de um verão que ansiávamos desde janeiro. Andávamos em bando, vestíamos saias indianas, tínhamos o cabelo muito comprido, éramos freaks, admirámos o punk, dançámos flamenco e rock. Pulávamos da varanda para namorar, driblávamos as ordens superiores, seguíamos o exemplo dos irmãos mais velhos, olhávamos com espanto o que vinha de Londres e Amsterdão, iniciávamo-nos nos paraísos artificiais, na sangria, no desafio, no que somos e construíamos sem perceber. A liberdade via-se nas ruas, nos sonhos, nos direitos que se desenhavam iguais para todos, podíamos ser o que quiséssemos, mas o futuro era a amizade, ver nascer o sol, as tardes na praia nos dias de setembro que não tinham fim. E a música. E as vozes que ouvíamos. Estudávamos. Pouco, mas éramos curiosos e o mundo estava à nossa espera. Tínhamos missões a cumprir. Mais longe. Gostávamos de ler e procurávamo-nos nas letras das canções que ouvíamos, nos livros de poesia que trocávamos. Filhos de Torremolinos e Viagem ao Mundo da Droga também nos passaram pelas mão, perderam a capa e algumas folhas, o bando leu-o, mas aqueles universos eram uma miragem de contornos indefinidos. Irreais e perigosos. Pouco a pouco, fomos fazendo as nossas escolhas. Umas mais acertadas que outras. Morreram-nos alguns. Apareceram crianças. O bando separou-se. Creio que é o que acontece a todos os bandos que crescem juntos a ouvir a mesma canção. Tínhamos sonhos e, se as ruas da Vila eram o nosso quintal, o tempo estava noutro sítio qualquer. Crescemos. Já não andamos em bando, mas ainda sabemos uns dos outros. Passeámos pelo lado mais perigoso, fomos James Dean, pelo menos, por um dia e quaisquer que tenham sido as cidades que atravessámos, we are going to reap just what we sow.

 

Obrigada, Lou Reed.

 

( Transformer de Lou Reed, foi produzido pelo próprio e por David Bowie e  é lançado em dezembro de 1972. É o primeiro disco a solo do ex-Velvet Underground. Ainda tenho o disco em vinil. Não me lembro onde o comprei.)

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dianne Reeves




Dianne Reeves

Dona de uma voz enorme, arrebatadora, um instrumento, mais um a entrar-nos pela pele. Boa disposição, ritmo, calor, groove e swing. Sintonia. Os músicos são uma família escolhida e falam a mesma língua. Apresentados, um a um a um, como uma cantiga. Rimos e batemos palmas. Gosta-se. Ouve-se a respiração. Partilha-se a alegria e o prazer de estar ali. Uma voz quente e de tudo a fazer uma canção - it's rainninig in the stage. In the stage, the rain. E choveu, no palco. Choveu mesmo, de verdade. Stormy Weather,  no início, assim tinha de ser. Não fazia  parte do improviso, mas ela improvisou logo ali o refrão. A gargalhada que nos contagia e trazemos para casa. Poderosa voz, elegantes de talento, os músicos, o improviso: uma boa noite de jazz. Our love is here to stay, no final, só ela e as mãos de Romero Lubambo, brasileiro do Rio, amado e companheiro de beautiful music e caipirinhaz, muitas noites, uma vida inteira, confessou-nos. Como se fôssemos íntimos. Fiquei com a voz, quando cheguei a casa, atirei: muito boa onda, um concerto com muito boa onda. Já se habituaram, não se importam de arrumar a cozinha, nem de ouvir Dianne Reeves nos próximos dias, os auscultadores, mãe, põe os auscultadores, por favor. Sou bem-mandada.  

Às vezes, uma  Beautiful Life.

Há quem compre viagens a preço da chuva, goste de marisco, vá a todas as estreias de teatro, lançamento de todos os livros, compre todos os livros.  Há quem faça yoga, sexo tântrico, saunas, puzzles, massagens em spas, viagens pelo país real. Há quem coma muitos chocolates. Nada contra. Eu vou à música. Compro o bilhete com muita antecedência. Nas primeiras filas. Plateia. A fila D é muito atrás. Vou sozinha. Triste? Não, não é. Não posso pedir a ninguém que goste da mesma canção e a queira ouvir três ou quatro meses depois. Quando vou acompanhada, o lugar é muito à frente, o lugar é muito atrás, já viste o vestido dela? Olha, repara naquele homem, não é nosso vizinho? Se calhar conheço-o da televisão e blá, blá, blá. Gosto de me concentrar e viajar até à canção de que sei letra, o ritmo que me leva para um qualquer sítio e, até, ouvir as conversas do casal ao meu lado, os miúdos que no fim assobiam, as amigas que compraram a assinatura e vão aos concertos, discutem o cabeleireiro, o filme, o livro de Saramago, quando as luzes da sala ainda se veem. Durante o concerto não existo, não tenho dores, não penso na vida, nada. Só a música e eu. Quanto baste.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Chuva






Chove.

Quando as gotas grossas da chuva caem, formam no espelho que a água derramou, uns círculos perfeitos, transparentes e repetidos. Num desenho exato que não para e não se repete. Um círculo perfeito pequeno e redondo, um círculo perfeito, cada vez maior. Uma argola pequena de água, que se espalha e desenrola numa argola maior e longe. Ajustam-se estas águas, mas não se abraçam e pingam, pingue-pingue, uma a uma, da mesma nuvem escura, disforme e cheia. Tingem-se de cores de rua: alcatrão, laranja pintado de castanho do barro que se desfaz, cinzento-escuro, prata pintada a verde. As cores do sítio onde caem. Redondas. Musicais. Quando não há vento, as gotas grossas da chuva espalham círculos perfeitos que não se tocam. Crescem. Afastam-se.

De cima, da janela que espreita a chuva, vejo o lago que tapa ou molha as solas dos sapatos. Agora, a noite apagou o céu e o brilho do rio. Os círculos perderam a perfeição e a luz. O vento veio com a noite e limpou as linhas perfeitas. Arrasta-as para outras formas, outras margens. As gotas mais longas vêm velozes e acossadas, pelos caminhos abertos entre os prédios e as varandas largas. Ruidosas. As copas das árvores e os candeeiros deixam-se ir nesta dança. Água e vento. A acompanhar a luz e a sombra, a chuva corre para o rio, rolos de folhas, papéis, plástico e troncos partidos. O ritmo mais veloz à procura do sossego da água larga e escura. Distante. À beira das luzes da cidade.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Noite





Noite

 

Resisto

porque quero ou porque

tenho

a cor

substantivo de sol

para a semente

 

Insisto

Porque penso ou  porque

sei

 

caminho mais intenso

 

ou porque vejo

 

depois do branco

a lua

a inversão do beijo

 

Maria Teresa Horta, do livro Vento coincidente (1962)

 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Assim, tão simples





( assim, tão simples)
 
 

Se Cuidas de Mim

Se cuidas de mim
Eu cuido de ti também
Dentro da minha mão
Eu guardo-te bem
Se amarmos do princípio
Se perdermos tudo outra vez
Vou marcar-te bem
Como um sonho vão
Dentro da minha mão

Se cuidas de mim
Eu cuido de ti também
Se vens em paz
Eu venho por bem
Se formos bebendo
O chão deste caminho
Vou guardar-te bem
Agora que sei
Que não vou sozinho

Há uma praia depois da sombra
Uma clareira p'ra iluminar
Há um abrigo no meio das ondas
Tu a caminho p'ra iluminar

 

                                         Tiago Bettencourt

 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Para o Rui



a tristeza é a morte lenta das coisas simples

Las Simples cosas

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,

lo mismo que un árbol que en tiempo de otoño se queda sin hojas.

Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,

esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.


Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amó la vida,

y entonces comprende cómo están de ausentes las cosas queridas.

Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,

que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.


Demórate aquí, en la luz mayor de este mediodía,

donde encontrarás con el pan al sol la mesa tendida.

Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,

que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.
 
Armando Tejada Gomes

 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Baseado em casos reais - Miguelito





Baseado em casos reais - Miguelito

Miguelito,

(não te importes que te trate assim, ninguém nos ouve, portanto o teu 1,85m não ficará arranhado), hoje, meu filho, falo-te por esta via. Os teus irmãos monopolizaram o Skipe, o teu pai está fechado no escritório, e eu tenho saudades das nossas conversas. Imagina, Miguelito, lá estou eu outra vez, que desde que te foste embora nunca mais tive licença para ver um daqueles documentários no Canal História, nem tenho com quem fazer teorias gerais por tudo e por nada. Não tenho grandes notícias para te dar, tu tens lido os jornais e vês os noticiários, estamos preocupados, já estávamos quando decidiste ir mudar de ares e fazer-te à vida, noutro sítio. Pensaste bem. Sou egoísta quando tenho saudades tuas. Tu estás bem. O resto foi o que deixaste – um país triste, pobre e desesperançado. Os sacrifícios são cada vez maiores, os ordenados mais escortinhados, há pouco ouvi as explicações de mais cortes nas pensões de sobrevivência, se não fosse o nosso país diria que é humor negro, o dinheiro está cada vez mais caro, diz a tua avó, o avô vocifera quando falamos ao telefone, continua a clamar, isso mesmo, adivinhaste, fui eu um oficial de abril, para ver esta cambada e por aí adiante, vocês falam quase todos dias, deves estar a par das suas queixas, temos sorte - os avós estão bem e de boa cabeça. Não queria que esta minha carta, já ninguém escreve cartas, fosse um rol de lamentações, não meu filho-mais-velho, mas está perto, olha, o nosso prédio, está tão animado que até dói, o filho do senhor Amadeu está desempregado, não pode pagar a creche, por isso, os miúdos passam o dia com os avós, ouvem-se, outra vez, crianças no prédio, a Dª Fátima é que não se conforma, depois de tantas privações e trabalhos tem os dois filhos em casa, tudo isto deixa o teu pai muito acabrunhado e dedica-se, cada vez mais, ao trabalho, compreendo-o, não tenho é ninguém para conversar, não quer sair de casa, e há meses que não vamos ao teatro…enfim, nada que tu não conheças. O teu irmão Paulo passeia a tua Tata, trata-lhe do pelo e é ele que se ocupa da ração, assim tenho menos saudades do mano, é o que ele diz, mas no outro dia tive de esconder a chave do teu quarto, porque andava a tirar fotografias à tua bateria, estás a ver para quê? Não estás? O inter-rail, o inter-rail e não se cala com os itinerários, abre mapas, espalha-os no chão, e passa mais horas no Google do que a estudar. Ele e a Tata, a Tata e ele, parecem-me felizes, divertem-se e a tua Tata ladra quando ele imita as gaivotas. A Teresa enche a sala de amigas e roupa fashion (será uma boa economista, apesar do corte na semanada, o quarto dela continua ser uma sucursal da Bershka), o pai diz que quando ela não está  a dormir, passeia as minissaias e fala ao telemóvel. A menina do papá continua muito engraçada, alegre, está fazer-se uma bonita mulher, nos dias mais felizes o teu pai diz que ela é parecida comigo, mas a tua cabeça era melhor e gostavas de ler, ela toda caracóis, olhos e gloss, vai para a escola passear, sem azia, mãe, os stôres ainda não marcaram os testes, tomara já que o mano venha de férias, porque não vou a Santos desde o verão. Estamos todos nas nossas vidas e só esta semana as temperaturas começaram a baixar, tu sabes como eu odeio o calor… As flores murcham numa semana. Tenho muitas turmas, muitos alunos, horas intermináveis na escola, reuniões, papéis, decretos-lei, diretores, matérias  para preparar, testes, metas curriculares, coisas que não te interessam, sabes que não sou de me queixar, mas estou, ou melhor, estamos todos fartos do Crato, ainda há horários sem professores e professores sem horário. Triste, muito triste. Tenho medo de não me reconhecer. Os miúdos são o reflexo do que se passa em casa, os dias para eles são sempre iguais e a escansão das sílabas métricas ou o estudo dos advérbios de predicado é-lhes tão estrangeiro e distante como Harare ou Vancouver (lembraste quando jogávamos scrabble e às cidades desconhecidas?). O tempo passa tão depressa, eu para aqui a falar, a falar, como é meu hábito, eu sei, não me ouvem, à terceira frase já desligaram, ou interromperam a perguntar o que era o jantar, o significado de uma palavra difícil, o paradeiro dos ténis (como se os ténis andassem sozinhos!). Talvez esta conversa te inspire e me escrevas uma carta, destas, sem selo, a contar de ti, dos teus amigos, do teu dia, das namoradas???? Tens comido bem? Andas bem agasalhado? Tens ido ao cinema? Precisas de dinheiro? Como tens de gerir muito bem o teu dinheiro….Continuas a gostar do trabalho? Organizas-te com as aulas na Faculdade? Tanta pergunta, mãe! O coração tão apertado de mãe é assim para o secante e nós não são somos nenhuns bebés. Para mim, serão sempre!  É a minha condição – tiveram azar, para além de mãe sou um ser humano e mulher. Pois, como tu costumas dizer se um elefante incomoda muita gente, uma mãe incomoda muito mais. Não gosto da comparação, mas talvez tenhas razão. Adoro-te meu príncipe-mais-velho.

Juízo, ouviste?

Beijos meus. O pai pede-te que lhe telefones, (a pagar no destino, sim, claro), os teus irmãos pensam muito em ti e a Tata já está menos chorosa – pudera, o teu irmão não lhe dá paz .

Mais beijos da mãe, daqueles repenicados à tia Custódia, ela gostava tanto de ti.

Beijos. Beijos

Os teus irmãos fartam-se de gozar comigo, porque entre um livro e outro passeio no FaceBook, mas não somos amigos – era só o que faltava!

(Gostaste da música que escolhi?)