Conhecem-se
de noite. Tocam-se, ainda, não alvorecia. Sabem que o dia virá. Silêncio no
tempo a passar entre um rasto de sono e de sonho. Sem palavras. Um só no outro
corpo. As solidões esquecem-se e aquecem. Sem pausas. Com sede. A intimidade a
crescer. Por dentro. Na rua ficou o mundo. Miséria, pobreza, infelicidade, doença. As estrelas apagam-se. Quase. Num minuto
que passa muito depressa. Não tardarão as vozes, os gritos, o insulto. Um só no
outro corpo, enquanto as estrelas brilharem. Ficarão assim com o cheiro, com a
pele, com o beijo. O último. Percebem que a sombra entrou e desenhou mais um dia. À hora
certa. À hora que o relógio nunca atrasa. Como a água que corre, quando se abre
uma torneira. Irreversível. Impiedosa. Pontual. Partir. Ficar. Não. Porque esta
noite só a felicidade se pôde adiar.
Há sempre
uns avós que vão com os netos às consultas, uns senhores que ainda têm uns
trocos para a carcacinha com manteiga e o macinho de cigarros. Quando não estão
nos consultórios com os netos, ou à porta da escola, estão a jogar damas no
jardim do bairro onde moram, os que sobraram - os bairros, os jardins, os
velhos, as damas e as reformas, claro! No consultório onde passei a tarde a
lacrimejar estavam dois pares de avós com dois pares de netos. Os avós
compostos no seu fato completo de ir ao senhor doutor e com os peúgos de lã,
estreados no dia de ano novo, não tiravam os olhos da televisão suspensa que
vendia dinheiro e muito sucesso. Os netos, ainda de farda e a chupar com
jactância, (gosto desta palavra - é mais forte que veemência, não é?) os
pacotes de leite com chocolate, equilibravam a palhinha com as PSPs ruidosas e
pronunciavam uns gorjeios que tive dificuldade em traduzir. Num banco mais comprido,
de napa verde e gasta, um pai-engenheiro-de-fato-completo conversava com a
filha, cada um tinha o seu tablet, e, pelo, ritmo a que os dedos
deslizavam , deveriam estar a discutir a prisão do Sócrates, o comprimento da
saia da jovem ou, apenas, a decidir a hora do regresso do Urban. A
miúda era cheinha de hambugers e pastilhas elásticas,compreensível, portanto, o
desespero de ambos no acerto dos horários. Não, não estariam a falar de
Sócrates. Já não interessa a ninguém e a Edite Estrela já passou de moda. Num
momento o pai fixa os olhos na televisão e com muita atenção segue o
empreendorismo do jovem de sucesso, que investiu todas as suas economias numa
fábrica de realizar sonhos. Entre uma pergunta e outra a menina de vestido
muito justo e o seu companheiro apresentador debitavam uns números de telefone,
a medo, o avô com os tais peúgos de lã
estreados no dia de ano novo e o pai-engenheiro-de-fato-completo marcaram o número
nos seus aparelhos e esconderam-nos, à pressa, no bolso das calças,
abanavam-se com a cara da Bárbara Guimarães e da Cristina Ferreira. Para os
miúdos os pacotes de leite chupados até à última gota já eram, espalhados no chão da sala. Importante, apenas, a PSP e um ou outro macaco que tiravam, com
algum esforço, dos narizes decorados a pontos negros e borbulhas do tamanho de
pipocas. A miúda exibia umas soberbas unhas de gel e eu juraria que os ténis de
salto alto já estariam guardados em qualquer caixa à espera de ser vintage.
Doíam-me as costas, o meu olho chorava todas as dores do universo, a cor do
vestido, dois números abaixo, da menina que insistia em ser fadista agora, que o fado era a canção mais
importante da cultura do mundo inteiro e entre uma lágrima e outra percebi o
sucesso da fábrica de sonhos: todos nós
temos um sonho, sei lá conhecer o Ronaldo, dormir uma noite no Tivoli, ser perseguido
por um bando de paparazzi, saltar de para-quedas, ir de férias para Vilamoura,
sei lá, de momento, não me lembro, assim, de mais nenhum, é verdade, já me
esquecia de um jovem que quis dar de comer aos elefantes, no Jardim Zoológico e,
nós vamos conseguindo, temos tido muito sucesso. Tinha, nesse preciso
momento, os dois olhos a lacrimejar. Mal conseguia ver. A luz incomodava-me. Ardiam-me por dentro e por fora. Então os sonhos dos portugueses resumiam-se
a apertar a mão ao Ronaldo, alimentar elefantes, dormir numa suite do Tivoli?!
Então e construir uma escola sem vidros partidos, um hospital digno, a cura de uma
doença, a Paz no Mundo? (Porra, isso, até aquelas mocinhas que querem ser misses
desejam!!!!) Desesperava. Os kwatts do
aquecedor no máximo fugiam pela janela da sala de espera que estava aberta. E,
isso incomodava-me. O dia escurecia e eu só pensava numa chávena de chá. Não,
não ousava abrir a boca, não fosse o tal senhor satisfazer-me o meu mais
secreto desejo. UI! Quero ir para casa e continuar a pintar os olhos, ver o
cair da noite no rio…. a enfermeira percebeu o meu sofrimento:Tenha paciência é uma urgência, vai ter de
esperar mais um bocadinho. Eu esperava. Era uma urgência, tinha de esperar. Olhava para a televisão, já tinha ido à
casa de banho e alinhava estes disparates no meu caderninho cor-de-rosa. Perdi
de vista o pai-engenheiro com a filha feia e os avós e os netos já tinham ido
fazer os trabalhos de casa. Restava eu, a árvore de natal que piscava umas
irritantes luzes verdes, um monte de revistas velhas e o programa da tarde que
continuava a dar dinheiro e vendia cebolas para emagrecer. Anoiteceu. As minhas
costas eram uma massa de lágrimas que eu não conseguia controlar. Não conseguia
ler. Afastei-me um pouco da televisão, procurei um ângulo menos doloroso e aprendi
um novo conceito de cozinha de fusão: sushi
e comida alentejana. Por exemplo, farinheira com sashimi suzuki, haru-maki com
grelos salteados e uma tempura ika com
yasai cozidos com arroz especial japonês. A dificuldade está na cozedura e na qualidade dos ingredientes, os
cogumelos, por exemplo, nãoprestam,
os cogumelos portugueses não prestam. Repetia o senhor da cozinha de fusão japonesa.Fiquei esclarecida–sou uma incompetente
cozinheira de fusão. E, no momento em que, Povo que Lavas no Rio se ouviu, na sala
que, entretanto, ficou vazia, entrei no consultório do médico… Duas seringas,
canais desentupidos, trinta e dois euros, uma tarde muito bem passada, dezanove
euros de gotas, uma chávena de chá de hortelã, ao lado da farmácia, e nem uma única
montra lambida. Nada. Cheguei a casa eram nove horas da noite, os miúdos estavam
a ler e já tinham jantado.
Eu fiquei,
por aqui. A televisão muda e cega, a rádio sintonizada na M80, não me perguntem
porquê...
Já não
consigo responder a perguntas difíceis.
Amanhã,
já conseguirei pôr o eye-liner, o rimmel e tudo a que tiver direito.
Ao telemóvel entre o Cais do Sodré e
o Marquês de Pombal.
O rapaz da
tatuagem.
Os rapazes, quando são rapazes são todos
iguais, bem, iguais, iguaizinhos, não serão, mas até ao momento em que mudam a primeira
fralda, choram a primeira alegria da vitória de um filho, ou soluçam, estiolados,
a morte da mãe, são sempre rapazes iguais, ainda que iguaizinhos, iguazinhos não possam
ser, porque há uma “coisa”, descoberta há pouco tempo, chamada genética, com
muitos cromossomas herdados do pai e da mãe, que os distingue na cor do cabelo,
tamanho das mãos, lisura da pele, o tamanho do dito. Acrescente-se, além, da
rua onde crescem, a escola onde aprendem a ler, a preferência ou a repulsa pelo
Nestum, o uso da Mustela ou do sabão azul e branco. Os rapazes - louvemos algumas
excepções – como diria a minha tia Rosinha que morreu solteira, mas que conheceu
muito bem o género masculino, “os rapazes, quer dizer, os homens é tudo farinha
do mesmo saco”. Quando era miúda e ouvia a voz sábia desta minha tia muito
vaidosa, sempre na rua e de livro na mão, achava que a ciência acabava ali. Com
esta minha tia aprendi quase tudo o que havia a aprender sobre o sexo
masculino, em teoria. Como é óbvio. À medida que fui crescendo, não só fui
constatando que ela era uma mulher sapientíssima sobre o género humano, em
geral, e, sobre rapazes, em particular. Na época, devorava com ela tudo o que aparecia
da Corin Tellado e do Max du Veuzit, o sonoro também ajudava e os admiradores
que lhe elogiavam o baton da Thaber também devem ter sido grandes inspiradores.
Falo de rapazes do “mesmo saco de farinha” e desta minha tia que não saía à
rua sem pintar os lábios e pentear com mil cuidados o cabelo que usava muito curto, porque, apesar de durante algum
tempo, ter acreditado que “os homens mudaram” e que “as mulheres se emanciparam”,
tenho de concordar que, apesar de se mudarem os tempos e as vontades (terão
mudado? até pareço a minha avó a falar) mudou, sobretudo a variedade da cor dos
batons e a possibilidade de os rapazes, os tais, “da farinha do mesmo saco”, poderem,
se assim o entenderem, pintar os lábios, as unhas, as costas, as costelas,
furar as orelhas, alargar o furo das orelhas, depilar o peito e outras zonas
mais sensíveis, não porque a moda seja ditadora, mas porque a imagem que gostam
de ver refletida no espelho, deve ser muito idêntica à da minha maravilhosa
tia. Perfeita… À medida de cada um. Pois, claro - uma figura esbelta, cintura
fina, pele agradável ao tacto, colorida sem o incómodo do pó de arroz que
obrigava aplicações frequentes, o cabelo com um bom corte, a calça
a condizer com a camisa, ou com a saia, o sapato engraxado, se for o caso, ou
de tecido, de marca, muito caros e apetecíveis, à venda, em qualquer site online.
Nesta comparação a minha tia está em desvantagem, porque morreu muito antes da
La Redoute, do ebay e do Facebook. Dizem os entendidos que a estes rapazes que
continuam a ser “farinha do mesmo saco” se dá a classificação de metrossexuais,
o epíteto não deixa de ter a sua graça, mas ainda não consegui descodificá-lo,
no entanto, consta que uma nova tendência dita agora o modelo lenhador de
camisa aos quadrados e machado na mão, não sei que nome se lhes dá e, de
momento, parece-me irrelevante. De volta ao espelho, que é sempre onde tudo
começa, tive há dias a sorte de conhecer um jovem rapaz, no sentido bíblico do
termo, passo a falta de originalidade e a heresia da expressão, da tal “farinha
do mesmo saco” dos outros todos, que entremeando elogios à doçura da minha boca
e à elegância do meu pescoço me fez lembrar a minha Tia Rosinha, sempre que num
gesto mais ousado me exibia as cores da bela
tatuagem-carregada-de-energia-positiva e se esforçava por aplicar, num frémito
de desejo, ensinamentos, atrás de ensinamentos estudados nesse Kamasutra do século XXI, chamado As
Cinquenta Sombras de Grey. Não fiquei convencida – a tatuagem perdeu a cor no
primeiro arroto, depois da cerveja da ressaca e resumir o encontro entre dois
corpos a uma série de exercícios, quiçá, copiados de uma qualquer lição da Jane
Fonda!? Não, me parece. No entanto, o que me faz pensar cada vez mais nesta
minha tia de lábios cor de carmim é a falta de originalidade na sedução. Na composição da personagem. Nas
primeiras palavras que se trocam, nas promessas de ver a lua cheia, ou
na constante utilização do mais belo sorriso do balcão e os mais belos olhos
que aqui estão… Minha querida Tia, ainda bem que lemos todos aqueles
livros, mas deixa-me discordar: as raparigas também não pertencem a “sacos de
farinha” assim tão diferentes. A vida está mal para todos!!! Um dia destes
apresento-te umas quantas, está prometido! A este propósito e, porque eras uma senhora
com muito mundo acrescentarias, como Vieira que tanto apreciavas, “tudo isto é
matéria para muita doutrina”, terias razão. Só um pequeno pormenor me confunde -
o gosto pelas tatuagens, o culto religioso, sim religioso, do corpo, estará
ligada à leitura dos clássicos, ao bairro onde se mora, ou será apenas uma
maneira de estar na vida?
Diferentes tons de cinzento, viagens a Las
Vegas, muito sexo ensaiado no ginásio e um corpo que se exibe em todos os
espelhos em que se tropeça serão as fórmulas para uma nova ideia de felicidade?
Então, Tia Rosinha, que me dizes? Tens alguma
ideia sobre o assunto?
Eu estou sem cor…. (Para descanso e tranquilidade dos meus amigos defensores da moral e dos bons costumes este texto é só isso - mais um texto, uma brincadeira, ficção e, pronto!)
Dançaram a noite toda, foi tudo naquele lusco-fusco a cheirar a cigarros, hálitos de mentol, gin tónico, transpiração derramada e perfumes que fazem questão em exibir numa saia mais curta, num decote mais atrevido, ele apreciou a silhueta de menina, a leveza do gesto, o bom gosto, na saia preta e nos sapatos de plástico a imitar verniz, ela, mais frágil, quase acreditou no beijo de oiro, nas mãos dele que não largavam a sua cintura. É na fragilidade e na tristeza que as pessoas se encontram, dizia alguém, ela preferia acreditar, que as pessoas se encontram na alegria de uma gargalhada fácil. À noite, é tudo encenado, preparado e ensaiado ao espelho, durante horas. Tudo escusado. A semana constrói-se na dureza de um futuro que se desconhece, compro uns pneus novos para o carro, ou mudo as lentes dos óculos do puto, se calhar este Natal não iremos à terra, as crianças têm de compreender que uma consola chega para os dois, a prestação da arca congeladora está atrasada, não visito o filho mais velho, porque isso já não fará grande diferença, agora na rua da frente abriu um pronto a comer, não é muito barato, mas evita-se o parque de estacionamento, as tentações do champô da juventude e o creme que tira os papos a volta dos olhos, este Natal não se incomodará com a Popota, eram coisas da Teresa e ela, agora, desde que vive com a mãe está mais preocupada com os sábados de Karaoke, coitada também com a vida que eu lhe dei! Ela está bem, o apartamento dos pais é em Massamá, já está pago, ela é filha única, tem um emprego estável. Educa bem os miúdos. Enfim, talvez fosse… Passo a semana a lavar camisas e a mandá-las passar a ferro, por isso, o fim de semana, é tudo que eu espero que seja. Casei muito novo, vieram logo os filhos, os horários e um raio de um trabalho em computadores que já não dá futuro a ninguém. Há vinte anos conhecera a Teresa enquanto dançavam o Thriller, eram tempos de muita loucura, o Tiago já tinha nascido e a Teresa pareceu-lhe perceber as frases que ele mal pronunciava. Foi tudo num ápice. Foi assim. Agora, ia para a noite à sexta, ao sábado e ao domingo era no centro comercial que gastava a nota que trocara na noite anterior, cinema e Macdonald com os putos. Já não eram muito putos, mas alguma coisa, algum exemplo teria de lhes deixar, no início eram os bonecos do Happy Meal. Era exemplo suficiente. Mais que suficiente! No último domingo o mais velho comunicou-lhe que teria de alternar os domingos com a namorada, a ele pareceu-lhe bem, se ela não aparecesse seria menos UCBO a menos, as miúdas também comem que se fartam, e as copas dos soutiens…. lembrou-se da miúda esguia da noite anterior, era gira , copa mais pequena, dançava bem, já a vira várias vezes, mas não... aquilo era muita dor de cabeça, se ela quisesse dariam uma queca, se ela quisesse… ele teria de encolher a barriga, não tinha unhas para aquela guitarra, mas reparou no puto mais novo à volta dela, talvez tivessem muito que dizer um ao outro, depois viu-os sair juntos, não lhes pareceu que acabassem na cama, dizem que só as mulheres têm intuição, os homens também têm. OH! Se têm! Clareava, quando saíram, ele mantinha a mão à volta da cintura. Ela gostava, gostou do sabor e do cheiro dele. Despediram-se. Com um bom beijo. Ela gostou do beijo e do que ele disse um bom beijo e de que ele não tivesse insistido no pequeno-almoço.
Nem no Tejo.
Entre eles havia dezoito anos de diferença, dezoito anos não é nada, o tempo é uma arbitrariedade.Não existe.Tinham passado dezoito anos que nunca existiram, dezoito anos de música, blusões e pulseiras de cabedal, marcas de iogurte, artes marciais era tudo diferente. E obrigatório. E o Foucault? O que é que tem o Foucalt? És mais feliz por teres lido o Foucalt?
Foi para casa a sentir-se cansada e, no entanto, mais leve. Menos cabeça. Mais feliz? Isso quereria dizer exatamente o quê: mais feliz!
Entretanto, adormeci,
fui puxada para dentro de uma nuvem e levava comigo um enorme cansaço e a certeza
dos acordes da canção de Jonh Coltrane, Time After Time, que não te dirá nada,
se calhar nem conheces – o que não me parece importante, comparado com a
vastidão do prado verde que eu conseguia ver, deitada na nuvem que insistia em
empurrar-me, ou talvez, apenas, me embalasse, neste sono a passar pelas brasas, que me cobria com outro sol, outro chão,
outra vida. Estava bem, ali, naquele bocado de cama, feito de algodão, feito de
ar, feito do pó dourado, (é verdade, que é dourado?) de que serão feitos os
nossos sonhos? Aqui e ali, acomodava-me num buraco mais do meu tamanho…. deixava-me
ir. Não percebo nada de sonhos e o mais
longe que consigo ir é à Pedra Filosofal e à perspetiva de um prémio milionário
do Euro Milhões. São muito raras as vezes em que sonho este sonho de algodão
e nuvens pintado a quimeras. Os sonhos que saem feitos e prontos dos livros da
Anita são-me “estrangeiros” (Albert Camus apreciaria a minha comparação!) e,
como não me pagam as contas, nem fazem de mim um ser mais etéreo, mais perfeito
e mais completo, deixam-me muito indiferente, às vezes inquieto-me, mas durante
pouco tempo, Talvez, por tudo isto, este deixar-me levar entre umacorde do Coltrane e uma nuvem de algodão - ainda
que estar de olhos fechados – me deixasse
a pensar que teria abusado do gin ou o comprimido para dormir estivesse
estragado....
Li os Clássicos Russos, fui uma razoável aluna de Ciências da Natureza,
acredito que Neil Amstrong deu o tal grande passo para a Humanidade e a penicilina
já me curou uma infeção muito, muito feia, daí que a minha relação com o sonho seja
idêntica à de uma amante fodida depois da vitória do glorioso - acreditava no
que havia para acreditar e, no dia seguinte, o Senhor Zé continuaria a assentar
as compras no Dever e no Haver, no caderno preto de capa dura, portanto, a
nuvem que me chamava e o prado verde não me conduziam, ao que eu julgava ser, o
tal do Nirvana de que tanto se fala, efabula e vende como pães quentes, à noite, nas vésperas de feriado. Continuava a
insistir no poder do gin e no verde do prado verde que, convenhamos, tinha uma
bela cor, além disso, restava-me a música e o tal cansaço. Mas sonhava. E
sonhava. E sonhava.
Quando o sol nasceu, eu
já não me lembrava da cor do prado, ou da leveza da nuvem, mas foi a luz do sol
a deitar-se, sem pudor, na minha almofada e os teus dedos a percorrerem o
contorno do meu pescoço que, sem nenhuma compaixão, me disseram: Estavas a sonhar, tiveste um sono muito
agitado. Sabias que falas durante o sono?
Agora, que olho bem para ti, posso confirmar - tens cara de quem gosta de
sushi. Pois! Pensei eu.
Será esta a matéria de
que são feitas as nossas esperanças?!
….estou a precisar do mundo, entendes? sair daqui, saltar
para fora destes degraus, olhar outros rostos, outros cheiros, consegues
perceber a minha pena ao ver passar
sempre à mesma hora, à mesma luz, no mesmo banco, o mesmo comboio? para onde
irão todos os outros comboios? que haverá além, mais além, das nuvens? não consigo
perceber esta vontade súbita de fechar a porta, não olhar para trás e seguir
por aí… não procuro respostas, já sei as respostas, todas? sim, quase todas,
não será isso presunção? não, são, apenas, muitos anos a ouvir que o dia de
amanhã será outro dia, o ano tem trezentos e sessenta e cinco ou trezentos e
seis dias, que depois do verão virá o outono, que uma grávida demora nove meses
a dar à luz uma rapaz ou uma rapariga, que não vemos o nosso rosto, a ondular, duas
vezes na água do mesmo rio, que a terra é redonda e que, agora, que sou
grande não sou ‘serás o que deus nosso senhor quiser’ – sabe lá ele que eu
existo enrolada nesta saia de pregas e camisola castanha! não sei se
conseguirás entender esta ânsia de me partir, ou talvez deme ver partir, ou apenas, de partir por aí,
não consigo explicar melhor e não tenho a pretensão de achar que os teus sapatos
são melhores do que os meus, da tua janela vê-se o mar e achas isso muito bom, ainda bem,
olha, eu consigo distinguir, umas sabrinas trinta e seis
de uns sapatos trinta e sete, reconheço as botas de fim de estação, os sapatos
de saldo e os pés vaidosos de uma mulher solteira, porquê? porque moro numa cave, sim e, também, sou boa a olhar,
tão boa que percebo que o sacos das farmácias são cada mais pequenos, a fruta
que a família de cima compra no supermercado já não enche dois sacos e, agora, é o miúdo mais novo que faz as compras , preciso
abandonar este cheiro a roupa feia e pobre,
que insiste em ficar, no ar, nos dias em
que não posso abrir as janelas, não quero o algarve, nem a costa da caparica e
cresce-me um nó no estômago, cada vez, que penso que o mais longe que consigo
ir é à trafaria, não me servem as tuas palavras, não as quero para nada, pois
claro, que há muita gente que nunca viu o mar e continuo a receber o ordenado, certinho,
no dia trinta ou trinta e um de cada mês, sabes o cheiro que fica no ar quando
os cães cagam aqui, mesmo, debaixo da minha janela? o pão-de-ló continua a ter o
mesmo gosto do da tia Zulmira, mas não cheirava a caca de cão, pois não? eu já sabia tudo
isto, quando vim para Lisboa? talvez soubesse, percebi foi tarde de mais que o
cheiro a merda não melhora com o pedigree dos bichos, nem com a qualidade da
ração, quero ir-me embora, ir daqui para fora, seguir, sempre, sempre, aquelas
placas que dizem ‘Outros Destinos’ e eu a ir sem destino nenhum, entendes o que eu quero dizer, quando te digo, que já não
me apetece sentar nos bancos da estação de cascais, a ver passar os comboios? lá, ao fundo, está o
mar, e tu sabes,que eu gosto muito do mar, e do outro lado já pensaste
no que poderá estar? já alguma vez foste ao outro lado? e, neste lado, já alguma
estiveste? deixo-me destas conversas de chacha que já não me podes ouvir e queres ver o jogo
do benfica em paz?! sim, traz um frango assado com picante e muitas batatas
fritas, não gostas de picante? então traz metade com picante e outra metade com
molho de limão, ah!, só vais depois do jogo, com o frango que sobrar faço arroz
de frango, agrada-te? não, homem, com o arroz já não se sente o sabor a picante,
sim, farei, como tu gostas, o jesus é estúpido? mas tu não gostavas dele?
É
triste escrever. São as dores que se espalham na folha em branco, escritas com
a ponta dos dedos de unhas muito roídas, ou muito pintadas, escorregam pelo
papel as lágrimas, as faltas, os pesares, os pedidos que se intimidam e ficam
calados no bolso do casaco, às vezes, caem, quando os bolsos têm buracos, estão
descosidos e não aguentam o peso das moedas. Escrever é triste, mais triste do
que pôr flores em jarras, como dizia o poeta. Surgem e impõem a sua vontade de
ser gente a quem nada se pediu, trazem do lado de dentro o cheiro a sémen e a
sangue. São gente em que não acreditamos, mas não resistimos. Os desgostos que
contam, os lutos que vivem. Escrever é dizer que esta alma não nos serve assim
como é, queremos outra e as mágoas ganham forma de parágrafo, de períodos, com
ponto final. Saem de um sítio que nem sabemos que existe. Triste. Um buraco sem
fim. Crescem pessoas, aparecem histórias, sem felicidade, sem sombra. Escrever
não é dizer dia de sol, porque um dia de sol não se escreve, existe, escrevê-lo
é apenas dizê-lo, ficar nas palavras que alinham um dia de sol, com letras de
teclas a saltar, ou caneta de aparo que range, mesmo que lá fora esteja a
chover. É na ausência que se escreve, na espera, na saudade, na vontade de um
corpo que pede outro. Em vão. Triste esta existência feita de quem lê o que
nunca esteve escrito - falsas as histórias, invenções súbitas, vozes que querem
calar, consolar o que não tem consolo. A voz de quem escreve é uma canção
triste, esta canção triste que tem de ser escrita, cantada numa gramática
velha. Esta voz a entoar uma melopeia. De noite, de dia, de madrugada. Chega e
não pede licença para ser. Quase uma pessoa de corpo inteiro. Uma pessoa
triste. Conta as desculpas das faltas, a razão dos prantos, as mãos a
desfazerem-se na folha de papel. E a dor implacável. Que se diga que viver é
uma condição e uma intenção não se escreve, porque não é triste. Escrever é
triste como a crueldade da esperança. Uma morte que não deixa um rasto de
memória. Escrever é triste como pensar muito. Como a revolta, a dor e a fome de
quem não come há muitos dias. A procura de salvação na escrita é como escrever
o texto mais triste. Sem Deus, sem deuses, sem redenção. Sem paz. Sem fim. As
belas histórias- lindas canções de encantar, são escritos tristes, iguais ao
raio de sol que se pintou no papel, enquanto trovejava. E, por isso, escrever é
triste. É uma resposta à pergunta triste: e,
agora, meu amor? Um romance, uma novela, um conto e teríamos a resposta
intacta. Vidas inteirinhas arrumadas, junto às paredes, vestidas como hussardos
ou czares. Não mudo uma linha, não sei
responder – as histórias não pintam a minha razão de que escrever é triste.