sábado, 25 de junho de 2016

MARIACHIS.......la cucaracha Pode o Amor ser tão Cruel III?

Pó branco para matar baratas ou pode o Amor ser tão cruel? III
A casa está em silêncio. Na rua não se ouve um grilo, um carro ou uma porta a bater. As luzes iluminam os passeios e, pelo brilho colorido em ritmo acelerado das janelas das outras casas, percebo o serão televisivo das famílias neste meu bairro de subúrbio com Tejo ao fundo. Ligo o rádio, espreito a lua e a casa está cheia das vozes dos miúdos que hoje não estão cá. Gosto da minha secretária, o quarto dos miúdos e a sala. Hoje não se sente o cheiro a hormonas. Há no ar uma tranquilidade de fim de semana que me faz esquecer, por momentos, as sombras, as saudades a solidão, a doença. Fechei há pouco um livro doem-me os olhos - chorei muito esta tarde - às vezes dou-me a este luxo de sofrer, de me abater de me deixar cair,de me entregar à tristeza e desistir de um livro ou de disco de Satie. Só eu e a minha dor. Esta tarde foi assim. O poder da entrega à dor é um privilégio que se tem quando, em casa, apenas, ficou este aroma de silêncio e cozinha arrumada. Oiço, enquanto escrevo, um rsrsr, olho para o chão e vejo uma barata, de pernas para o ar (afinal não estou sozinha) a contorcer-se de dores, de aflição, o momento que antecederá a sua morte Odeio baratas (são seres vivos, fazem partem do ecossistema, blá, blá o raio que as parta!). Em breve pegar-lhe-ei com um bocado de papel higiénico, não tenho medo delas, mas não gosto da sua presença, atirá-la-ei para a sanita com muita convicção.Penso no pó branco, no pó branco, espalhado pelos cantos, que a deixou naquele estado de pré-coma, atordoada, dolorida e incapaz de encontrar uma saída, o regresso para o buraco de onde nunca deveria ter saído.O «maravilhoso» pó branco é uma potente droga.Cria dependência, cegueira, surdez. Antes de morrer de vez, as baratas sofrem que se fartam e, se por acaso pensarem alguma coisa de jeito, arrepender-se-ão de o terem feito . O pensamento não é coisa de baratas. O amor tem o mesmo efeito nas pessoas. O pó branco que mata as baratas, depois de um razoável período de agonia e alienação produz em nós o mesmo efeito. Igualzinho. Continuo a não gostar de baratas. Não pouparei a vida a este ser vivo que me perturbou a paz e a serenidade de uma sexta-feira à noite sem Mensagem, declinações e Estado Novo. Não te pouparei a vida,barata barulhenta e gulosa! Ainda tenho um frasco, quase cheio, deste pó branco: é verão vivo perto do rio, ainda vou precisar dele umas quantas vezes. Quanto ao amor, depois de ter visto o estado lastimável da barata e o seu veloz desaparecimento pelo cano a baixo....
Quanto ao amor.......
Se o pó branco que tanto atrai baratas e pessoas, fosse como o pó de talco....Bem, nesse caso, cheiraria bem, mas afastaria as baratas teimosas e outros seres dos nossos caminhos? Produziria o mesmo efeito? Bateria tanto assim o nosso coração porque é disso que se trata, certo? E morreríamos a seguir?
Não. E não seria amor, mas outra coisa qualquer!.
Coisas minhas: ando a ler muita poesia e não vejo televisão há uns quantos dias.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

PODE O AMOR SER TÃO CRUEL? II

Pode o Amor ser tão Cruel?  II


Nada começa bem sem água tónica,  ou como a palavra revolução pode ser o exemplo do mais puro dos vernáculos.
 
 O Sting, também, ajudou.

Acabou-se a água tónica, o que é um mau início de noite, aliás, um mau início de qualquer coisa, começamos, portanto, mal, muito mal. E, então?  Qual é a mãe que não tem um  pacote de sumo de laranja – do verdadeiro, sem corantes, nem conservantes – ou um par de boas laranjas do sul, sim, qual é a mãe que não se previne com um bom frigorífico recheado de iogurtes, um congelador com cubos de gelo,(às vezes, só tem ervilhas) e dois dedos de vodka para oferecer à amiga que não gosta de gin? Dizem que não dá ressaca!” (amanhã, digo-vos qualquer coisa, sobre este assunto). Posto que está arrumada a vontade de toldar a realidade , ou como diria o poeta Charles Bukowski: “Here's a bluebird in my heart that/wants to get out/but I'm too tough for him,/I say, stay in there, I'm not going/to let anybody seeyou.”, (estes poetas , como o Bukowskvi e outros são muito citados pelos intelectuais aqui do feicebuque, será  porque bebem  uns copos, ou pertencem aquele grupo  dos que lêem e ouvem Tom Waits há séculos? Eu oiço o Tom Waits e bebo uns copos  há séculos , mas  quem mo apresentou – ao Charles Bukovsky - claro, foi um aluno, pela mesma altura conheci os Ornato Violeta e os Sigur Rós, nada a  ver uns com os outros. Associei, foi só. Era uma professora muito ignorante, e pronto, o que não é de estranhar: não tinha feicebuque e achava que o computador era ‘coisa’ para cientistas, ou assim), adiante, com um copo de vodka orange ( noutros tempos pedíamos com pronúncia estrangeira ), e a Rádio Radar a fazer-me companhia, estou, então,  em condições de vos explicar, porque voltei ao vernáculo. É muito simples. Tenho uma dor. Dói um bocadinho. Só um bocadinho! Tinha planeado para nós um fim de semana romântico, apesar de eu saber, que temos ambos alergia ao que é romântico e à palavra n a m o r a do/a;  tinha posto de parte uns dinheirinhos; comprei  outro trólei –desengane-se quem pensa que eu vou ao Google ver como se escrevem bem as palavras inglesas - ; organizei umas mudanças de datas para não faltar aos meus compromissos de mãe; fiz  as contas à depilação, verifiquei a temperatura, o calor prometia banhos de sol e caipirinhas à beira-mar – o fato de banho é giro com uns buracos dos lados, que só ficam bem a quem pesa 48 kg, ( vá, Sarita, se com a minha idade pesares o mesmo  que eu é porque herdaste os genes  da minha tia Irene, ou o mau feitio do meu  avô materno, veremos,  Sarita, se cuspirás  no prato do jeitoso italiano… Se fosse  o Clooney eu perdoar-te-ia…ainda coloco bem o pronome, portanto, Bukowsky não tenhas medo da concorrência), dizia eu, que tinha tudo muito bem pensado: pesquisas de voo estudadas, vestidos de verão a alternar com as calças mais justas, as camisas brancas com fibra, para não se amarrotarem , separadas das outras , as sabrinas  a combinar com o resto das roupitas, se tivéssemos vontade de sair da palhota e, pelas minhas contas, até as raízes do cabelo se aguentariam dento do provável – tudo tão bem organizado como a prateleira dos medicamentos, ou o material escolar no primeiro dia de Setembro (aposto que, nem tu mamã farias melhor!), como se pode verificar, viveríamos um fim de semana planificado como um período lectivo a que não faltariam  nem os conteúdos, nem as estratégias e respectivos recursos – as metas veríamos depois. Tinha tudo em ordem para te levar, para agarrar nos teus olhos azuis, a pele morena e “os truques que aprendeste no cinema” e roubar-te ao subúrbio. Partiríamos, sós, tu e eu, até poderíamos seguir as placas que dizem outros destinos. Iríamos rumo ao calor, ao mar, ao sexo, aos copos…. Como tu gostas. Pois. Mas, pensei bem, esta mania de pensar não me larga , e deixa os meus sms sem resposta. Esta mania de andar de mão dada na rua, a minha insistência em falar na primeira pessoa, a diferença de idades, as dores constantes nas costas, nas minhas. sim. Esta mania de ter uma doença crónica não te deixariam confortável….eu sei que tu gostas do meu fato de banho e os bicos das minhas mamas não te deixam indiferente. Compreendo! E, se me sentisse mal? Se por um tremendo de um azar tu viesses a gostar um bocadinho de mim? Se uma dor mais forte suspendesse uma das minhas gargalhadas? Se um dia acordasses e reparasses nas rugas do meu pescoço, nas sardas das minhas mãos? Que diriam os teus amigos? Que raio fazes tu com uma gaja mais velha, é jeitosinha, sim, porra, é mais velha do que tu, está doente, não incomoda, é verdade, mas ouve lá meu, é uma prisão, ‘tás ver? Ouve lá, meu, sai dessa, não faltam, por aí, gajas, mais novas, na tua, com um bom par de… meu, ouve lá, isso é uma dor de cabeça, meu, ainda não tens cinquenta, tu não pensas assim , meu!
Continuei a pensar, era fácil: bastaria arrumar tudo direitinho nas gavetas, poderia comprar um computador novo, não chegara a comprar os bilhetes de avião, e o destino, ainda, não estava decidido. Sem dramas, uma “nódoa negra sentimental” que se curaria com uma camada de Hirudoid, uns aquários de gin e um bocadinho mais de timeaftertime.  Mais do mesmo. Tudo certo. “[…]I  say, stay in there, I'm not going[…]”.  Ai,Charles, Charles!
Sábado tens uma festa. Top. Na semana seguinte tens outra, o verão está a chegar.
Meu, segue o teu caminho, olha, vai ao concerto dos Scorpions, ainda há bilhetes. Top.
Eu disse que isto sem água tónica não começaria bem. Como vês, não acaba melhor.
Amanhã, sem falta, acrescento à lista uma garrafa de vodka e água tónica. Talvez compre uma boa tradução de um livro de poesia. Sem água tónica nada começa bem. 
Nada!
Quando um inquérito tolo do feicebuque me diz que a palavra que define a minha vida é Revolução e me pede ”diz alguma coisa sobre isso”, queriam que eu respondesse o quê?
 'Foda-se', claro! A minha vida é uma revolução. Diz-me, por favor, alguma coisa que eu não saiba!
Ouve, com atenção a canção do Sting: é Top, meu!




sexta-feira, 15 de abril de 2016

Leonard Cohen e um dia de chuva.


Dia de chuva ou como um dia escuro pode ser um dia bom.

Entro na manhã ainda a querer ficar com a cabeça tapada e o corpo enrolado no calor da cama. O sono foi muito leve e escasso. Doeu-me a cabeça e a existência. A alma também não ajudou. Desligo o despertador e acompanho a luz que entra transparente. Pálida. Não me apetece o dia, as salas frias, degradadas, os miúdos barulhentos a conversa de sempre, as metas, as metáforas, as visitas de estudo e os encarregados de educação. Deixo-me levar. Encolhida e cansada. Adormeço. Um sono profundo. Em duas horas recupero a insónia. As dores desaparecem. Respiro fundo. Penso em ti. Na canção, no beijo. Estou atrasada. Pego no telefone e consigo adiar, quarenta e cinco minutos a correção dos trabalhos de casa e o grupo verbal.Quinta-feira a compor-se. Despacho a rotina. Esqueço-me da noite mal dormida. Quando atravesso a avenida não chove, evito as poças de água. Sigo a vida. Começo a cumprir o horário. O dia e o percurso como tem de ser. A vidinha, tu sabes como é! Desculpa, mas não conseguirei pensar em ti. A gramática escreve-se no quadro branco e passa para os cadernos diários. Recebo as perguntas. Retribuo o sorriso da minha colega. Agradeço. O coração sossega. Não ouvimos a chuva, trabalhamos em paz. Não falta ninguém, menos mal: não há miúdos doentes. Damos uma gargalhada – “Professora, está na hora há dez minutos.” E, como se a noite tivesse sido de um sono só, entro na sala que cheira a sopa, massada de peixe, perfumes e roupa molhada. A promiscuidade abençoada pela crise e por escolas sem refeitórios: os almoços, agora vêm em sacos, térmicos, coloridos e saem fumegantes ao lado dos livros de ponto. Entremeiam-se com o Descartes, o Eça, as equações ‘os ácidos e as bases’. Não me queres convidar para almoçar? Leva-me para o rio, dá-me um abraço. Sim, a canção -  traz também. Aceito a sopa, a fruta. A tarde será longa, tenho de seguir. Os olhos da diretora de turma brilham, toldam-se de ternura, diz de um menino que está diferente, mais sossegado.  «Estou tão feliz! Vamos conseguir que o miúdo passe o ano.» Sei que a visita de estudo foi aprovada. Rio. Que trabalho tão bem feito! Que sorte! Ao balcão aprecio a competência de quem me tira um café. O senhor M. olha-nos, assegura-se que tudo está em ordem, pergunta-me se preciso de alguma coisa. «Sempre às ordens, senhora professora. Se quiser levo os seus livros para a Biblioteca.»  As escolas são as pessoas. Pronto. Ignoro o simpático elogio: «Pois, a magreza traz muitas rugas. Esse vestido é novo?» Não respondo. Não quero conversa de saias. Não preciso de livro de ponto. Subo as escadas. A lírica camoniana, a métrica, o amor e o desconcerto do mundo. Tão desconcertado que o mundo está! Outro dia e ficaria a divagar sobre a mudança - ‘não muda como soía’. Hoje, já, não me apetece. O puto veio para escola sem a chave. Mais tarde não estarei em casa. «Não se preocupe senhora professora eu dou a chave ao menino. Não a vi a chegar. Está tudo bem com a senhora? E a chuva que não pára! Fique descansada.» O coração solta-se. Estou quase a agradecer a chuva, o frio e a primavera distante… Vamos tratar de papeladas, eu e o miúdo mais velho. Caí o céu em cima de nós. Conversamos. «Tenho de estudar três horas, mãe, não posso ir contigo às compras.» O meu coração não aguenta. Tratamos dos papéis. Uma senhora muito simpática resolve tudo muito bem. Uma instituição pública e mais uma profissional competente. Bem-haja. Sinto-me em falta. Agradecida. O miúdo concordou. «Europa, mãe. Estamos na Europa e deixa de dizer que o nosso país é atrasado, se faz favor.» Às vezes esqueço-me e irrito-me. Compro pão para uma semana ainda a pensar na senhora simpática. «Deixas-me em casa e vais à tua vida.» Sim. À minha vida. Seguimos de táxi. O pão apetece com manteiga. Mais conversa. Chegamos. O céu continua a cair-nos em cima. O miúdo fica em casa. Leva o pão, protege os papéis da água. Larga-me um sorriso, perco-o quando entra no prédio. É nesse momento que penso em ti, já olhaste bem para mim? À luz do sol, quero eu dizer. Escrevo, numa factura apagada a lista das compras. Não me esqueço de nada, porque escrevo tudo. Agora, tenho de escrever tudo. Tudo: uma lista para o supermercado, anoto ao lado o total que posso gastar; a ordem de trabalhos da reunião de amanhã; os livros que tenho de ler; os números de telefone, de todos os dias; a prioridade das arrumações; as coisas da vidinha para o fim-de-semana. Ando pelo centro comercial com um sorriso idiota e a falar sozinha. Vou beber um café e comer um pastel de nata, queres vir? Claro que não virias, não terias paciência e a nossa ‘coisa’- como tu dizes - não conhece o tapete rolante de uma caixa de supermercado. Estaladiço o pastel de nata, o café sabe a fim de tarde com rio ao fundo. Coração, coração, coração! O sorriso idiota insiste. Não me importo. A livraria está vazia, as lojas estão vazias, nos corredores, homens e mulheres carregam os ovos, o leite, os detergentes. És tu que fazes as compras? Fazes uma lista? Nunca te esqueces de nada? Compras a comida já feita? Um dia destes cozinho para ti, queres?  Não há muita gente, vejo as horas, ainda posso deambular pelas prateleiras da livraria. Os livros estão com desconto. A música está em saldo. Não é bom de ver. O livro mais vendido não me interessa. Se tivesse dinheiro comprava um cd de Jazz para te oferecer. Música que não costumas ouvir. Saio. Resisto a um livro. Não compro. Não está na lista. Devo ter falado muito alto, porque uma miúda sardenta parou e mostrou-me o aparelho com elásticos pretos. Primeiro o talho, depois os congelados. Estava a olhar para os queijos quando o telefone tocou. Era a minha amiga I. A chuva e o trabalho. Desistimos do teatro. Marcamos para outro dia. Um filme. Queremos ir ao cinema. Desabafamos mágoas antigas, dizemos disparates. Fazemos projectos. O Cesário, o Pessoa… Mordo uma pele, mas não falo de ti. Ninguém sabe. Prefiro assim. Despedimo-nos a rir. Como uma irmã mais velha diz-me: «Oh, mulher, pela tua rica saúde não te olhes ao espelho. Eu já não olho. E também sou gira. Porra, sou mais velha do que tu. Adeus, miúda. Escolhe o filme.» Apresso-me. Caixa vazia. Gastei menos do que tinha anotado, ao lado, na lista. Estou bem. Os sacos não estão muito pesados.

Saio devagar.

A chuva parou. Estou em paz. Penso na I. e na professora que conseguiu pôr um miúdo a trabalhar. A ternura do olhar da professora de cabelos grisalhos, a senhora simpática e prestável, o senhor M. e a Dª C. saem comigo. O céu está  cinzento, sem frio e, ainda, com luz. Os dias alongam-se, a felicidade também.

E é quanto baste.

 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Pode o Amor ser tão cruel? I






Pode o Amor ser tão cruel? I


Encontraram-se onde, agora, as pessoas se encontram, entre um poema de Vinícius e uma canção de Cole Porter, no espaço, ínfimo que separa um ‘like’ de um comentário de quatro ou cinco linhas. Andaram neste namoro três, quatro semanas. Depois de muitas trocas de imagens de filmes que lhes assegurava a cumplicidade de um passeio à beira-mar e a cor de lingerie, passaram a ser um do outro. Um namoro banal, quase, feliz, como os das pessoas que acreditam no amor e na comunhão de almas tocadas pelo “que seja eterno enquanto  dure”, nos sms, com as mesmas palavras, à mesma hora. A mulher sorria, brilhava-lhe no rosto a tarde de amor, sexo e poesia trocada entre dedos, língua e pele. Tinham-se encontrado e, para a mulher, era o início de um idílio que a levara a perdoar ao homem o hades, o desconhecimento da música barroca e a desatenção a um dia de trabalho. Perdoava-lhe os pecadilhos, os gestos menos delicados e o vernáculo exagerado nas declarações de amor. Viam-se e amavam-se entre uma aula de condução do filho mais velho, o teste de inglês do mais novo e as doenças crónicas da mãe dele. A mulher trabalhava, organizava-lhes a felicidade, acompanhava os filhos e ansiava pelas palavras do homem no quadradinho azul do computador, abençoava as tecnologias e a felicidade que lhe dava a partilha dos mesmos poetas e os refrões das cantigas do Abrunhosa. Construíram um nós, passeavam na praia batida pelo vento e ousaram uma ida ao cinema. A mulher que não acreditava no amor começava a perceber a beleza de um beijo roubado e a segurança de um biillet doux às oito da manhã: “Os amores felizes devem ser todos iguais como as famílias felizes de Anna Karénina”, livro que a mulher duvidava, que o homem alguma vez tivesse lido, falha que não a incomodava, porque aos cinquenta anos aprende-se a valorizar a força das palavras em surdina. Assim passaram os dias, o entardecer, os sábados à tarde, quando a ginástica das crianças não lhes tolhia o orgasmo, ou o prazer de uma conversa mais séria. A mulher sentia-se bem com aquele homem com um passado de aventuras, uma doença ruim, dois casamentos infelizes e a banda sonora certa para qualquer que fosse o cenário. No início, achava-o exagerado, provocador, atrevido, no entanto, a sua meiguice – ‘amorzinho para cá, amorzinho para lá’ – convenceram-na, apreciava aquelas carícias, os elogios à medida da sua cintura, ao brilho dos seus olhos. Foram-se ajeitando, sempre a cumprir horários, sempre a obedecer. Era a vida de cada um deles, o passado que se impunha, o dela mais comum, mais tranquilo, o dele mais carregado, mais rendilhado: ‘não somos todos iguais e a lucidez com que educamos os filhos depende de pessoa para pessoa’ – é a alma dos nossos negócios, como na canção da Bethânia e do Chico. Sabiam-na de cor. E, quando se encontravam no mesmo verso, o mundo parava, os seus olhares eram um só e a vida parecia que não se tinha esquecido deles. Enfim, poderia, pensava a mulher, reconciliar-se com a definição de um possível amor - a poesia tinha uma voz e um eco na sua pele. Um mês, dois meses, organizados ao milímetro, passaram. A mulher estava feliz, o homem também. Passavam horas a trocar mensagens e promessas, a mulher achava graça àquele palavreado, gostava da sua imagem ao espelho, o homem respondia-lhe com uma canção e ousava os seus dedos na curva das suas coxas, no recorte dos seus lábios. Havia entre eles uma afinidade de uma novela romântica e o respirar dos diálogos de Anaïs Nin. E riam, riam muito. Dos dias de chuva, das suas aventuras de adolescentes, das transgressões mais arrojadas, das vidas que tinham vivido. Encontravam-se à luz do dia, mas o parque de estacionamento, à noite, com os candeeiros de lâmpadas fundidas não lhes era indiferente. Ele estacionava o carro à beira Tejo, ou à beira-mar do Guincho e amavam-se. Podiam ficar uma tarde inteira, duas horas, mas nunca mais do que um intervalo, sem remorsos. ‘Coisas dele, pai extremoso’, pensava a mulher. As horas que lhes pertenciam eram só deles e tinham a cor e o respirar de um nós que o homem tinha imposto. Ela sentia-se feliz. Completa. Mulher. Provocadora. Amada. ‘Bem fodida! Queres tu dizer.’ E, riam-se, uma vez mais. Um rir e um estar que a mulher desconhecia. ‘Beijas tão bem!’, dizia-lhe ele. Viviam aquela felicidade única, comum para  quem acredita que os minutos podem ser eternos. Poesia, música, pele, transgressão e uma bonita história de amor - ‘ é o amor’ - que tinha passado de uma linha virtual para uma cama num prédio das Avenidas Novas. ‘E, se fugíssemos?’ – perguntou-lhe ela, um dia, mais atrevida, mais cansada, mais ansiosa. ‘Sim. Podemos fugir.’- respondeu-lhe ele. Combinaram uma esquina, ali, numa perpendicular à Avenida Fontes Pereira de Melo – ‘Esperas por mim, estarei parado no sinal, amanhã, por volta das quatro, quando me vires, vens ter comigo, depois logo se vê…um fim-de-semana, uma noite…Se calhar, chego um pouco depois das quatro. Quando me vires …’  Ela concordou, Sim, sim, chegaria o seu momento. Organizou os jantares, o saco da Educação Física, as rotinas…. Avistou a perpendicular com a Avenida Fontes Pereira de Melo , um pouco depois das quatro, estava atrasada, viu o carro dele, parado. Avançou, o coração a sair da boca, a correr dentro do seu corpo: ela correu também. Atravessou a Avenida, viu-lhe o sorriso e correu, agarrou o presente que lhe comprara e cerrou os dentes, saltou para a rua. Jogou-se nos seus braços, não percebeu o sinal vermelho para peões, nem o Mercedes que arrancou e a jogou para longe, para o outro lado  do passeio, como um papel amassado, jogado pela janela, sem forma e, já,  sem vida. Do outro lado, na perpendicular com a Avenida Fontes Pereira de Melo, o homem virou a chave, pôs o carro a trabalhar, olhou para esquerda uma vez, para direita outra vez, percebeu que ninguém o tinha visto, esperou que o sinal mudasse para avançar, sentiu, por momentos, o sangue nas veias - ‘ Chegarei a tempo de estender a massa para a pizza, o miúdo não precisará de ir jantar ao Mac. Ainda vou espreitar o feicebuque, pode ser que a Ana Paula já lá esteja’. Olhou pelo retrovisor, o corpo da mulher ainda estava estendido, desarranjado, no chão. Ao longe, ouvia a ambulância que se aproximava. Entretanto uma pequena multidão olhava para aquele corpo sem vida, disforme, descalço. “Está a sorrir, a mulher está a sorrir”, gritou uma voz mais descarada. "Ainda era jovem, devia ser bonita.”

Quando a ambulância chegou, chuviscava e a noite descia no céu frio de Dezembro.





segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

One night stand



Mimi Tavares, One Night Stand, 2012.
 
 
 
 

One night stand

 

Estico os braços e  percebo as costas lisas, macias, largas: um homem misturou-se comigo no último cubo de gelo. O olhar. Via um par de olhos, lembrava-se dos azuis, brilhantes, a estatura, a aproximação das mãos, o ruído de  uma canção que se conhece de cor, o cigarro que caiu no chão, “tem lume?”, muito óbvia a pergunta, na noite, num refrão gasto por onde se deixa arrastar o corpo não se pensa. No óbvio. Não se pensa. Tinha os olhos abertos doridos e olhava para aquele corpo, a seu lado, semi nu. Apagam-se as palavras, amolecem  os gestos, o corpo insiste, quase se toca, pressente-se um desejo – uma solidão igual. Doía-lhe tudo, a existência, a respiração ofegante, sem nome, atravessado na sua cama desfeita, já sem penumbra. Com a dor e o que insistia em ver, em procurar, viu o apoio - um longo balcão de imagens repetidas, em frente, havia um espelho, viu os olhos brilhantes, vítreos, na sua frente. Na cabeça, ouvia o bater do seu coração, a conversa igual, a banalidade dos desabafos, as mãos dadas, sim, tinham dado as mãos, devem ter rido: o choro não traz desconhecidos para casa, a tresandar a gin. Mexia-se a custo. O desespero e uma angústia  espalhavam-se pelo corpo, na garganta seca, nem a sinceridade de um gemido, não conseguia afastar-se, endireitar-se. Sem pudor - o sol,"ajudar-me-á”. Tossiu e sentiu um golpe. As costas subiam, procuravam a almofada. O corpo de costas macias, lisas e largas mexeu-se. “Olá, tens um cigarro? ”Um indicador mostrou-lhe o chão encerado e a roupa espalhada.”Deve estar, por aí, um isqueiro”. A frase arrancada deixou um risco de enjoo. “A casa de banho?”. Com o olhar, mostrou-lhe o caminho. “É a porta pintada de azul”. Tinha frio. Cobriu-se com lençol e ajustou o corpo a procurar conforto. “Queres que te deixe o meu número de telefone?”. A cabeça, muito devagar, acenou.“Não vou precisar do número de  telefone, para nada. Despacha-te. Vai-te embora!” Cruzou os braços, viu as horas, lembrou-se de um almoço, ou seria um lanche? “Adeus, foi um prazer”. Sorriu. “Não duvido”. A cabeça ao ritmo do coração.
 
 

(Porra....ainda me dói o Francisco. Foda-se! )  



 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 
 
 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Para o F.





( um bocado de papel para reciclar)

 

Para o F.

Sou pouco dada às palavras – lia com dificuldade as letras das canções que cantarolavas – e os sentimentos não são, como sabes, matéria da minha preferência, quero, no entanto, à sombra destes dias de inquietação, dizer-te, num último parágrafo, que encontrei um par de botas pretas acima do joelho; aprendi, por fim, a fazer puré de batata e a Maria Felicidade, irmã da Sãozinha, que não chegaste a conhecer, continua desaparecida. Trivialidades. Nada disto faria muito sentido, se não tivesses encontrado debaixo da mesa que compraste na Feira da Ladra, a minha caneta de tinta permanente e uma beata fria com restos do meu baton. Vês tu?! Eu tinha razão: o amor não existe. Deixo a chave que me emprestaste – fizeste questão de dizer, várias vezes, que era emprestada! – na caixa do correio. Se, por acaso, ainda houver algum rasto meu: um cabelo, uma mancha de perfume, um botão, deita-o fora – o passado é o tempo que nos fica colado à pele, não podemos permitir que nos agarre, também, a alma. Quanto à caneta podes ficar com ela, quando a tinta secar, poderás arrumá-la no fundo de uma gaveta, ou oferecê-la a quem aprecie, ainda, um aparo a raspar o papel. A caneta é um objeto: podemos fazer com ele o que por bem entendermos, os objetos não têm remorsos.

Adeus.

Lamento as banalidades deste último parágrafo. Ou, talvez, não.

 

P.S. – Não te preocupes, não irias gostar das botas – são demasiado brilhantes – pisar-me-ias, num passo mais arrojado, ao som de uma canção de Frank Sinatra.

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Texto com bolinha ou variações sobre um quadro de Dali



Resultado de imagem para Rapariga à janela Dali
Salvador Dali, Rapariga à janela

Texto com bolinha ou variações sobre um quadro de Dali

Lembra-se de ter visto esta janela no Museu do Prado, estavam ambas, lá, por acaso, ela e a rapariga do Dali. Entrara na sala de Dali pela mão de um filho, era uma exposição temporária e, enquanto os outros  ficaram com os relógios e a cara da Gala, ela ficara, suspensa, a olhar para aquela janela, para o movimento do corpo bordado a tecido claro, colado às ancas largas, as pernas roliças, o rosto escondido pelas madeixas de cabelo, o pé displicente apoiado na ponta dos dedos, o mar com uma vela muito distante, o reflexo no vidro, o panejamento repuxado pela violência da janela escancarada, um pano, ou um lenço, do lado esquerdo, o corpo da rapariga sem mãos nem rosto. Sentia o seu respirar, pensou que as mãos poderiam estar cruzadas,ou abandonadas a um desejo que a sensualidade do vestido exibia sem pudor. Ficou muito tempo mergulhada naquele mar, sentiu, por momentos que aquela janela lhe pertencia. Não era grande apreciadora de Dali - não desprezava a sua genialidade - gostava dos surrealistas. Mas Dali não era o seu preferido, daí o seu espanto...aquele bocadinho de vidro da janela a refletir as casas e o movimento sensual daquela mancha branca de muita cor e luz, durante muito tempo, não a largavam. Nunca mais a largaram. Tem feito, ao longo da vida, muitas legendas para aquele retângulo de mar emoldurado, quase simétrico, interrompido pela mancha branca de  cor e luz, de uma mulher. Imagina-se a mulher - a rapariga do vestido colado às costas e às pernas -, vê-se com as mãos enterradas na barriga a amparar os movimentos, intensos, sempre mais intensos, ritmados, compassados - em música - do corpo do homem que, da sombra de um céu cinzento, se entregou  às suas coxas e se colou ao seu corpo. As palmas das mãos abertas tocam nos ombros, a voz dele lambia-lhe o pescoço, a mão direita procurava, rastejando, o nó do seu prazer. (a rapariga da janela com sexo à frente) A mão esquerda do homem segurava a moldura de madeira a que os movimentos de ambos se agarravam. Endireitou-se, encontrou o seu lugar entre a a boca e o prazer que aumentava e se roçava na pele, ao som de uma valsa tocada ao piano. (a rapariga da janela com sexo à frente  não se mexia ao frio de novembro, nem ao vento do mar) Um movimento levantou-lhe o vestido, a mão grande do homem abriu caminho, molhou os dedos e no primeiro gesto simultâneo, entrou nela, ávido, a saciar as bocas. Ficaram um só. Ofegantes. Libertavam-se. Um e outro. Dois acordes da mesma canção nos seus ouvidos. Quando acabaram de se beijar e, olharam o mesmo  mar, a vela de um barco que se via da janela com uma rapariga desconhecida -  pintada por Dali -  tinha desaparecido.