segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Parabéns, João.






Parabéns, João.

O calor continua. Veio assim do mês de agosto.

 Entrámos no melhor mês do ano. O Setembro de vindimas, marés cheias e praias desertas, cadernos, canetas novas. Este mês de fim de férias, de sol a aparecer mais pálido e temperatura a baixar. Este é o nosso mês, João. Nasceste às sete da tarde de um dia de setembro muito quente e húmido. Há quinze anos. Nasceste como o César e eu não me importei. És o filho mais novo. O segundo rapaz. Gostei que tivesses nascido homem. Nasceste com a cara encarniçada e muito cabelo. E eu disse à tua Avó: Ai! Este é tão feinho. E eras. Comprido, cabeludo e encarniçado. Mas vieste bem e sereno, horas depois de teres nascido tiveste fome e desde então nunca deixaste de comer com prazer e avidez. Também és assim com a vida e a alegria : ávido, sôfrego. Com quinze dias começaste a levantar a cabeça, a olhar com os olhos muito abertos para os sons, cores e brilhos que te rodeavam. Quando não estavas a dormir. E dormias bem. Foi muito fácil ver-te crescer. Não choravas. Não te incomodavam as pessoas e gostavas de música. Erik Satie e Al Di Meola. Tornaste-te bonito, desenxovalhado e risonho. Foste um rapazinho feliz. Falaste sempre bem e vias o teu irmão como uma continuação de ti próprio. Quando te perguntavam o nome respondias: José. Com um sorriso. Hoje não tens dúvidas e não gostas quando te confundem, ou comparam com o teu irmão. Fazes quinze anos, João. Ser quinze anos. Aos quinze anos há pouca coisa engraçada e é tudo muito difícil: a escola é uma chatice, estudar e fazer os trabalhos de casa um pesadelo, as raparigas são complicadas, os pais são uns chatos e o corpo e as borbulhas não param de crescer. Eu sei, eu também tive quinze anos. Acredita, o tempo passa muito depressa, mesmo que o teu tempo, com quinze anos, seja diferente do tempo dos outros. Mesmo assim… Acredita, se conseguires. És tão irrequieto. Irreverente e distraído. Às vezes, não sei onde estás, para onde foste e com quem conversas. O João é muito livre, disse alguém  sobre ti. Sim, és. E perdes o equipamento de Educação Física, os livros escolares o passe do autocarro e o cartão da escola, nunca tens canetas, nem lápis, mas nada disto te incomoda. Nem percebes a minha irritação. Vives preocupado com os outros, com a injustiça e aos seis anos choraste durante um dia inteiro, porque o buraco do ozono estava a aumentar. Estás longe. No mundo da lua. Num mundo melhor do que este, digo eu. Muito curioso, um dia perguntaste por que é que os oceanos não entornavam, mas a minha resposta não te convenceu. Há poucos dias, à noite, olhaste para a lua e disseste: Lá está a lua que não cai e nada sabemos sobre a gravidade. És assim e eu tenho um orgulho enorme em ti. Tu não vês, mas eu rio para dentro com os teus disparates, as tuas distrações, a tua curiosidade. Tens um sorriso que todos os dias me abraça e és tão bonito e tão sensível que eu não saberei responder, quando me perguntares que vida será a tua. Parabéns, João. Eu sei que gostamos muito um do outro e só isso interessa, não é verdade?

Parabéns, João.

(Não me leves muito a sério, quando digo que nasceste feio e encarnado. Não ligues. Pouco tempo depois ficaste com esse olhar doce e as covinhas na face, que serão a perdição de muitas raparigas. Não te esqueças: eu gostaria de ti mesmo que tivesses nascido verde. Não te esqueças, meu querido filho.)
Parabéns, João.

                                                                                                                                                                      


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