quinta-feira, 31 de julho de 2014

O silêncio e o Tejo no último dia de julho.





Silêncio e o rio Tejo no último dia de julho.

Muito nublado, pintado de cinzento o rio, o céu carregado deixa que as curvas dos montes se recortem e desenhem curvas sensuais, ora mostrando, ora escondendo, as nuvens mais grossas. Advinha-se, ao longe, uma cidade, na linha do horizonte com corpo de mulher. Corre, o rio, pesado e dançando com pequenas ondas, deixando-se -se levar, cortam-lhe o ritmo os cacilheiros, os pequenos veleiros, os barcos mais velozes. Renova-se. Em cada curva. Investe nos pilares da ponte. Estremece com as hélices de um helicóptero ruidoso. Da água escura, apenas, um marulhar tímido. A cor acinzenta-se, cada vez mais espessa, mais turva, a neblina fica opaca, apaga o transparente. Está húmido o ar, quase frio, neste julho que se despede. Arrefece. Não apetece a cerveja, nem o gelo a derreter num copo mais inspirado. Nem  uma gota de sol , durante todo o dia. Os semblantes ficam mais carregados, impacienta-se quem na praia procura forças, as respostas, a necessidade de justificar o tempo de repouso que se guardou para trinta dias de pés dentro de água e a esfregar-se na areia. O tempo está a mudar, este verão está cheio de medo, teme a crise, cospe a guerra e entristece-se, perdeu a esperança. Não me incomodam os dias sem sol. Junto ao rio a pele desejaria o abraço de um tecido mais quente. De um lado para o outro, há quem se desafie numa corrida, numas pedaladas de uma bicicleta mais sofisticada, num passo mais ritmado, aceleram-se os corpos. A neblina é cortada pela cor dos maillots, dos ténis garridos. O cinzento cortado com bolas de cor a compor o caminho a par do rio, de alcatrão, feio e escuro. Um caminho muito estreito, deitado ao longo do rio. Não se ouvem vozes de crianças. As vozes, surdas, vão e vêm, apetece uma gargalhada, a música deixa-se ouvir através das colunas alinhadas Componho a écharpe, Não tem frio? Perguntam-me, não, não tenho frio. A luz a enfraquecer entristece-me, há quem jante, penso na cidade de Cesário Verde, penso noutras cidades. Fico a pensar. A pensar. A olhar para o rio. Se olhar para a esquerda, consigo distinguir o encarniçado da ponte, nas minhas costas, no outro lado da linha, prepara-se a cidade – vem aí mais uma noite. Uma noite de inverno, oiço alguém dizer. Imagino-me, nesta mesa num dia de inverno escuro ou  um domingo de inverno, com sol. Se fosse janeiro não estaria, sentada, tranquila, a olhar para o Tejo. Numa esplanada. Não veria aquele veleiro cheio de histórias e mar para contar. Continuo sem frio. Cai um pingo no meu caderno cor de rosa. O pingo não estragou as palavras que a parker desenhou. Há cães que ladram a uma gaivota e um homem limpa o suor a um lenço estampado. À medida que o tempo avança, o dia vai caindo e  a noite não demora, não tardará. O caminho estreito, agora, começa a parecer uma avenida de vestidos decotados tapados com casaquinhos  de gente mais previdente. Quando saí de casa não pensei na humidade. Queria ouvir música, ver o Tejo – estaremos separados uns dias. A avenida em que o caminho se transformou deixa ouvir os aviões, o teclado do inevitável Facebook, os telemóveis mais insistentes e as conversas mais amargas sobre dinheiros desaparecidos. Começam a chegar os casais, temos reserva para jantar. Talvez fumasse um cigarro. O dono da esplanada pergunta-me se tenho fome, Quer que lhe mostre a ementa? Deixo-me ficar, não tenho fome, ocuparei a mesa mais uns minutos. Sairei, quando a cidade de seis andares ultrapassar os pilares da ponte. No andar de cima, as pessoas parecem cedilhas à solta. Varreram a cidade durante o dia. E, de repente, a música começa a ter o som de alguém que a toca. Ficarei mais um pouco, esqueço a cidade de seis andares. A minha bebida está no fim e a avenida ficou mais larga, mudou de vida e de lugar. Reconcilio-me com a humidade e  continuo sentada. O caderno  cor de rosa, a parker e eu estamos a gostar. Um idiota saído  de um filme série B bate palmas, não me mexo, não quero as palavras espalhadas pelo chão. O silêncio desapareceu, a avenida e o Tejo ficaram. Estou em boa companhia. Os músicos acertam-se, os primeiros acordes do saxofone acompanham as braçadas dos remadores de camisolas às cores. Entra o contrabaixo, dois miúdos a rir e a correr e um barco a motor a riscar o Tejo e o Silêncio. O céu escureceu  um pouco mais. Não estou sozinha, tenho a música sentada na minha mesa da esplanada, em frente ao Tejo. Identifico um ator de telenovela e um tema de Miles Davis, não me recordo dos nomes. Esqueço o frio e a humidade. As nuvens não se percebem no céu mais escuro. Um casal agasalhado pede marisco. Nunca me ocorrera misturar Miles Davis com marisco. Gosto de Miles Davis de marisco nem tanto. Na outra margem já se veem pontos de luz e, por breves momentos, o rio ficou sem um único traço a raspar-lhe as ondas, distingo o diálogo, contrabaixo e saxofone, os gritos e uma gaivota. Já não são horas de dia. Terei de partir. Pedir a conta, fingir que tenho frio e levar a música que ficará no ar.

Está na hora. O meu relógio tem as horas sempre à hora certa.

Vou para casa. Andarei mais um pouco à beira rio. Não, ainda não. Um pombo preto poisa no banco colorido, volta para trás. Não se mexe. Eu já fui e, no entanto, continuo a olhar para o Tejo. Regressarei um dia destes. Prometo.

 

(Algures, no Tejo, no dia 31 de julho de 2014, às 20h50m)

 

 

 

6 comentários:

  1. Que belo esse teu rio, esses passeios vistos pelos teus olhos. Com ou sem sol é lindo vê-lo nas tuas palavras.
    Nota: não deixes ninguém 'espalha-las pelo chão'
    Beijinho e boas férias

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  2. Aparecem-nos naturalmente lentes macro nos momentos de solidão, não é? Bom texto, de facto.

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